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A política precisa de gestores, não de atores

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Imagem de uma urna eletrônica
Imagem de uma urna eletrônica • Canva

As convenções partidárias entram na reta final. Até 5 de agosto, partidos e federações definirão as suas candidaturas, para o desespero daqueles que cultivam a protelação. Em seguida virão os registros e, a partir de 16 de agosto, a propaganda eleitoral ocupará as ruas, as telas e as conversas. Cada candidatura procurará apresentar à sociedade a sua interpretação do presente, as suas prioridades e o futuro que pretende representar. 

A atividade política não prescinde da comunicação. Quem exerce ou pretende exercer uma função pública precisa falar, explicar, ouvir, convencer e apresentar as suas ideias à coletividade. A democracia eleitoral é também uma disputa entre leituras da realidade e projetos para a vida comum. A comunicação pode qualificar essa disputa. O problema está em substituir a política pelo espetáculo. 

Guy Debord, em A sociedade do espetáculo, publicado em 1967, observou que o espetáculo não é apenas um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas mediada por imagens. Na vida pública, a representação tem deixado de comunicar a realidade e pretendido ocupar o lugar dela. 

O espetáculo político não se resume às câmeras, aos palanques ou às redes sociais. Manifesta-se na transformação do poder em encenação permanente: o político se converte em ator e a política, em teatro. A dancinha no TikTok vale mais que o argumento; o grito indignado substitui a reflexão; a imagem de eficiência importa mais que a eficiência. Governar, legislar e construir soluções perdem espaço para a necessidade de parecer ativo, corajoso, autêntico ou revoltado. A política perde substância e ganha personagens. 

Não se deve atribuir toda a polarização brasileira aos políticos, nem a examinar como fenômeno exclusivamente nacional. O Brasil participa de uma crise mais ampla das democracias, caracterizadas pelas desigualdades, pela insegurança econômica, pela precarização do trabalho, pelas guerras, pela emergência climática e pela perda de confiança nas instituições. As plataformas digitais acrescentaram a esse cenário uma comunicação que premia a simplificação, a indignação e o conflito. 

A sociedade brasileira também possui conflitos próprios, desigualdades históricas e divergências econômicas, religiosas, culturais e morais. A política espetacularizada recolhe essas tensões e as organiza como antagonismos absolutos. Problemas complexos recebem explicações elementares; ressentimentos encontram um alvo; adversários são apresentados como inimigos da pátria, da moral, da religião ou do povo. O diálogo é interpretado como fraqueza ou mesmo traição. 

A polarização ultrapassa os partidos e alcança a vida cotidiana. Pais e filhos, irmãos, amigos e vizinhos passam a se enxergar como representantes de campos inconciliáveis. A eleição não é mais uma escolha entre distintos projetos e diferentes visões de sociedade e assume a forma de batalha moral, na qual a vitória de um lado pressuporia a destruição simbólica do outro. 

A democracia convive com o conflito; existe precisamente para organizá-lo por meios legítimos. O que ela não suporta é a transformação de toda diferença em inimizade. Para além das eleições, existe uma comunidade política. O Brasil não é apenas a soma de grupos que competem por poder, reconhecimento e recursos. Somos um povo que compartilha território, instituições, história, problemas e algum destino comum. 

Nesse cenário midiático e turvo, talvez pareça um devaneio sonhar com consensos de longo prazo: educação básica transformadora; empregos de qualidade; uma rede ferroviária compatível com a dimensão nacional; economia industrializada e inovadora; redução das desigualdades; sustentabilidade ambiental; ciência, saúde pública e capacidade de planejamento. 

Partidos podem divergir sobre meios, prazos e prioridades sem abandonar a construção de uma nação mais próspera, educada e menos desigual. A experiência chinesa, resguardadas as diferenças e sem concessão ao autoritarismo, mostra a importância da continuidade do planejamento e da definição de objetivos nacionais. O planejamento não é monopólio dos regimes autoritários. Democracias também precisam saber onde pretendem chegar. 

A política submetida ao espetáculo dificilmente consegue fazê-lo. Ocupa-se da próxima postagem viral, da próxima polêmica e da próxima pesquisa, enquanto o planejamento exige continuidade e responsabilidade pelas próximas décadas e gerações. O ator depende da cena; o gestor responde apenas pela realidade.  

Antes dos personagens, deveriam vir a sociedade, os projetos e os problemas concretos. Mas não é o que acontece. 

Voltemos, então, o olhar para Minas Gerais. 

Em outra oportunidade, já indaguei nesta coluna: quem quer governar Minas e para quê? A pergunta permanece. Minas possui desafios objetivos: dívida pública superior a R$ 200 bilhões; margem fiscal severamente limitada; renda da população aquém da riqueza produzida e do potencial econômico do estado; dependência da mineração; profundas desigualdades regionais; graves problemas de mobilidade; e uma extensa malha rodoviária que exige recuperação. 

Esses problemas não podem aparecer nos planos de governo como títulos genéricos. Qual é a estratégia para a dívida e para recuperar a capacidade de investimento? Como diversificar a economia, atrair investimentos e gerar empregos de qualidade? Como reduzir as desigualdades regionais e melhorar estradas, mobilidade, educação, saúde e segurança? 

A disputa mineira se desenha entre um nome de grande apelo pessoal, marcado até aqui por indefinições, e alternativas que ainda buscam converter articulações partidárias em projetos reconhecíveis e capazes de mobilizar a sociedade. As convenções resolverão os nomes. Continuará em aberto a questão principal: que Minas cada candidatura pretende construir? 

Governar Minas não é tarefa para atores interessados apenas em ocupar um novo palco. Um estado complexo, endividado, desigual e territorialmente diverso exige planejamento, boas equipes, prioridades claras e capacidade de execução. Problemas dessa dimensão não cabem em vídeos curtos, frases ensaiadas ou indignações ocasionais. 

Dizer que a política precisa de gestores, e não de atores, não significa reservar a República a bacharéis ou tecnocratas, nem reduzir a administração pública à lógica empresarial. A política envolve valores, representação, conflitos legítimos e escolhas difíceis. O Estado deve servir a toda a sociedade, inclusive àqueles que não votaram no governante. 

A gestão não substitui a política; confere consequência às escolhas políticas. Significa conhecer a realidade, planejar, formar equipes, executar, avaliar e prestar contas. Sem isso, o discurso se separa da ação e o mandato corre o risco de se transformar em encenação. 

Nos tempos atuais, quiçá seja impossível fazer política sem algum espetáculo. Que ele permaneça em seu devido lugar: como instrumento da comunicação e sempre subordinado à política. 

Em uma eleição, a população escolhe os vencedores. A política democrática deve impedir que, para vencer, alguém transforme parte da sociedade em derrotada, fragmente o país e converta a vida pública em espetáculo.  

O povo brasileiro não é plateia, e o Brasil não é teatro. A política precisa ser maior que o espetáculo. 

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Alisson Diego Batista Moraes é advogado, professor e filósofo. Mestre em Ciências Sociais, com especializações em Gestão Empresarial e Direito Constitucional, possui 20 anos de experiência em gestão pública. Foi prefeito e secretário municipal. É escritor, consultor em planejamento e políticas públicas. Site: www.alissondiego.com.br

 

 

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