Belo Horizonte
Itatiaia

A Lua, a infância e os limites da humanidade

Por
Missão tripulada concluiu passagem pelo lado oculto da Lua
Missão tripulada concluiu passagem pelo lado oculto da Lua • Divulgação / Nasa

Na infância, ensaiamos nossos futuros. Em um deles, como tantos brasileiros, eu seria jogador de futebol, goleiro do Galo, tipo o João Leite. Sonhava com a camisa 1 defendendo o meu time contra as ofensivas adversárias. Em outro, seria escritor. Tipo o Guimarães Rosa, gravatinha borboleta, óculos de hastes pretas e olhar agudo de quem sabe o que faz. Em outro ainda, diplomata, ou qualquer ofício que me permitisse atravessar mundos, viajar, conhecer países, pessoas e culturas, diversidades.

A infância possui essa magia: inventa os destinos antes mesmo de conhecer os limites humanos. Entre todas essas projeções vocacionais uma se impunha sobre as todas demais: ser astronauta. Era um sonho muito curioso, quase contraditório, porque eu sempre tive muito medo de altura, algo que conservo até os dias atuais. O fascínio vinha justamente dessa contradição.

Quem nasceu nos anos 1980 cresceu com o céu ainda cercado de mistério, encantamento e promessa. A corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética já não tinha o mesmo calor dos tempos de Yuri Gagarin e da chegada do homem à Lua, mas continuava acesa no imaginário de quem foi criança entre desenhos animados, brinquedos, filmes e histórias de ficção científica. Olhar para o alto era a certeza de que a humanidade podia ultrapassar a si mesma.

Décadas depois, é impossível não revisitar esse imaginário ao acompanhar a missão Artemis II, lançada pela NASA em 1º de abril, que realizou nesta semana o primeiro sobrevoo tripulado da Lua em mais de cinco décadas. Agora, a nave cumpre a sua trajetória de retorno e tem a sua reentrada prevista para as próximas horas. O feito impressiona, sem dúvida, mas passada a euforia, é momento de reflexão: o que significa alcançar a Lua quando ainda não aprendemos a sequer habitar própria Terra com justiça?

O Vaticano também entrou no debate. A Fundação Caritas in Veritate, ligada à Santa Sé, retomou, por meio de um vídeo e de nova intervenção pública, a reflexão apresentada em fevereiro no documento Outer Space and Humanity at the Crossroads: A New Frontier of the Common Good e defendeu que o espaço deve permanecer um bem comum, submetido a normas jurídicas claras e a uma responsabilidade compartilhada entre povos, Estados e gerações. A formulação é religiosa na origem, mas possui inegável alcance político. O arcebispo italiano Ettore Balestrero foi incisivo: o espaço “não é terra nullius” nem um “campo de conquista sem lei”. O que está em jogo não é somente a exploração espacial, mas a velha tentação humana de converter toda fronteira em disputa e toda conquista em privilégio.

A questão não possui apenas um viés tecnológico. Não se trata somente de saber até onde a humanidade consegue chegar, mas sob quais princípios pretende fazê-lo. O espaço será tratado como patrimônio comum ou como ativo capturado pelos mais fortes? A nova economia espacial servirá à cooperação entre nações ou à concentração de poder em poucas potências e corporações? A técnica continuará avançando sem que a ética lhe imponha qualquer contenção? A Lua pode não ser o nosso destino futuro, mas já se converte em poderoso espelho da humanidade. O risco é repetirmos fora da Terra, com instrumentos mais sofisticados, os mesmos vícios políticos, econômicos e morais que já devastam o mundo aqui embaixo.

Vista do espaço, a Terra se encolhe, e a arrogância humana também deveria encolher com ela. Astronautas relatam o chamado overview effect: a percepção de um planeta pequeno, frágil, sem fronteiras visíveis, o que deveria instigar em todos nós um sentido mais forte de pertencimento comum e de responsabilidade coletiva. O astronômico e divulgador científico Carl Sagan condensou o assombro moral da pequenez planetária diante da infinitude espacial ao denominar o nosso planeta como o “pálido ponto azul”. A imagem é forte e poderia ser capaz de nos tornar menos soberbos e mais responsáveis uns pelos outros.

É impossível não pensar o Brasil nesse contexto. Nosso país dispõe de uma posição geográfica estratégica, inteligência acumulada e razões suficientes para aspirar a um papel mais relevante na seara espacial. Nossa trajetória espacial tem sido marcada por descontinuidades, contingenciamentos e frustrações. O trauma de Alcântara permanece como uma ferida aberta na história tecnológica nacional. É preciso superá-la. O lançamento comercial, em cooperação com os sul-coreanos, da Operação Spaceward, em dezembro de 2025, foi apresentado como um marco histórico, embora a missão tenha sido interrompida por uma anomalia pouco mais de 30 segundos após a decolagem; em março de 2026, a causa técnica da interrupção foi identificada. O déficit brasileiro não é de vocação, mas de compromisso, de capacidade de pensar além dos mandatos e de construir uma agenda nacional que sobreviva aos políticos de ocasião, de continuidade e de prioridade estratégica.

Os relatos sobre o espaço raramente trataram de foguetes, luas e planetas. Trataram de nós: do poder, do medo, da solidão, da esperança, do limite e da tentação humana de manipular aquilo que ainda não aprendeu moralmente a merecer. O cosmos sempre funcionou como um teste de caráter civilizatório. Ele amplia as nossas ambições, mas também expõe os nossos defeitos.

O menino que um dia sonhou ser astronauta continua achando belo que a humanidade volte a olhar para a Lua. Seria triste demais perder inteiramente a capacidade de maravilhamento. O adulto, porém, já não consegue contemplar esse movimento sem uma reflexão mais incômoda. A grande questão do nosso tempo não está nos foguetes, nas bandeiras ou nas proezas técnicas. Está no tipo de humanidade que acompanha tudo isso. Chegar mais longe nunca bastará. Resta saber se teremos grandeza moral para que a conquista da distância não revele, mais uma vez, a pequenez de nós mesmos.

Por

Alisson Diego Batista Moraes é advogado, professor e filósofo. Mestre em Ciências Sociais, com especializações em Gestão Empresarial e Direito Constitucional, possui 20 anos de experiência em gestão pública. Foi prefeito e secretário municipal. É escritor, consultor em planejamento e políticas públicas. Site: www.alissondiego.com.br