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Farinha pouca, meu pirão primeiro!

Esse é o perfil de quem que, quando confrontado com a miséria alheia, esquiva-se dizendo que pobre não gosta de trabalhar

De início, reitero meu respeito pelos professores que, nesse país, em todas as instâncias, não têm o salário que merecem, as condições de trabalho mais elementares e o nosso respeito. São tão importantes que precisam dar o exemplo, não apenas no cumprimento de deveres, mas, no caso dos de ensino superior, especialmente, também de compromisso com as boas práticas da ética.

Recentemente, dois fatos chamaram minha atenção quando do anúncio do fim da greve na UFMG: a divisão da assembleia - 201 contra 179 – e o baixo número de presentes. Dos mais de 3 mil professores, apenas 13 por cento compareceram para decidir algo tão impactante na vida de muita gente.

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É certo que, às vezes não podemos comparecer, embora quiséssemos demais. Não quero acusar os ausentes de estarem na praia ou curtindo a roça, embora saibamos que essa prática não é incomum.

Não me refiro à maioria, nem acredito, mas, já testemunhei o lazer de muitos enquanto poucos lutam pelos legítimos interesses da categoria. Acontece em todas as categorias.

O que me parece mais grave é a indiferença dessa maioria em relação às consequências de um movimento paredista. Dia desses, num lugar público, ouvia os planos de um casal para evento na cidade de Tiradentes.

Ela avisava “vamos na sexta”, e, antes que ele ponderasse que a festa seria na noite seguinte, sentenciou: “Se vierem com reposição de aula no sábado, vou inventar uma doação de sangue”.

O comportamento dessa senhora é típico de boa parte da elite brasileira: nasce em lar abastado, estuda em bons colégios, passa num concurso público e vive o resto da vida falando mal do governo, esperando que os colegas briguem por seu salário enquanto inventam artimanhas para não trabalhar. E o que é pior de tudo, não se importa com os outros.

O aluno que não fez greve vai perder a reposição? Azar dele. Não é problema da dona se a faxineira mora longe, nem se o filho da babá tem escola. Aliás, esse é o perfil de quem que, quando confrontado com a miséria alheia, esquiva-se dizendo que pobre não gosta de trabalhar.

O Brasil está tão descarado que o servidor público de mestrado e doutorado anuncia a infração com todos os pulmões. Saudades de Darcy Ribeiro que identificou uma das mazelas do Brasil: “Uma classe dominante ruim, ranzinza, azeda, medíocre, cobiçosa que não deixa o país ir pra frente”.


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Antes de trabalhar no rádio, Eduardo Costa foi ascensorista e office-boy de hotel, contínuo, escriturário, caixa-executivo e procurador de banco. Formado em Jornalismo pelo UNI-BH, é pós-graduado em Valores Humanos pela Fundação Getúlio Vargas, possui o MBA Executivo na Ohio University, e é mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Agora ele também está na grande rede!
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