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Times

Velocidade de Cruzeiro

Para onde vai a fé? Começamos com uma pergunta. Indagações são importantes . Às vezes mais até do que respostas. As respostas podem ser idiotas, as perguntas quase nunca ou nem tanto...

E para onde vai a fé? Alguns, até anteontem, diriam que, para o abismo. Sobretudo a católica, em velocidade de cruzeiro, para esquecimento. A Igreja com seus ritos, arcanos, seu “time desencontrado” não parecia ter espaço no cenário contemporâneo.

Mas calma lá. Como dizia Lacan, “se haverá analistas no futuro, não sei, mas padres com certeza”, faz muito sentido. É fato: a religião tem uma grande capacidade de se reinventar. Isso porque ela lida com algo que sempre terá espaço dentro do ser humano: o desamparo.

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Podemos colocar aqui nesse bojo de reflexão também os evangélicos. O protestantismo é um fenômeno que ampara, convence, elege, agrega. Não obstante haja uma grande massa de “desigrejados” (evangélicos “não praticantes”), ninguém ignora que o país mais “católico” do mundo fala cada vez mais “glória a Deus”. O evangelismo faz preço, faz voto. Ele “marcha para Jesus” e vai muito bem obrigado.

Seja na Igreja Católica ou no âmbito evangélico, a fé tem se ressignificado. O ponto de tensão, todavia, é que ela tem se tornado, em muitos espaços, uma questão de “time” e uma experiência “gourmet”. Em tempos de polarização afetiva, em que tudo resvala na moral, e “a moral” é o invólucro de afetos e interesses obscuros e conflitantes, a fé pode ir para o abismo. Isso porque ela deixa de ser encontro, conversão genuína e passa a ser um “jogo de futebol” na sul-americana, um “nós contra eles”. Aqui, o risco é que se deixe der ser cristão e se passe a ser torcida. Torcida organizada, massa de manobra.

Como experiência gourmet, a fé desidrata. Ela se torna o que “eu escolho”, o que “me faz bem”. Crê-se por juízo de gosto, não por convicção. Há uma primazia das sensações e da estética. “Deus” se converte em bibelô, em ídolo.

Antes, o debate era sobre os santos e suas imagens. Houve até pastor chutando santa. Hoje, tanto nos âmbitos “católicos”, quanto “evangélicos”, elegem-se “santos”, “mitos”, "ídolos”...

Esse é um movimento natural. Em tempos de crise ter uma realidade com a qual se identificar, inimigos para odiar e ter um salvador para resolver isso é a solução mais óbvia. A Igreja Católica já fez isso. Católicos, na época das cruzadas, tivemos os nossos hereges. Foi, sem sombra de dúvidas, um período de avessos mas também do florescimento da cristandade. Isso nos uniu e inspirou. Hoje, sobram-nos as disputas internas, pelos que são de “Paulo ou de Apolo”, sobram-nos os grandes e caros colégios terceirizados, um pouco por eficiência administrativa, um pouco por falta de vocações.

Quando a cama dos reis é dos sacro-imperadores esfriou, surgiu a burguesia e, com ela, o protestantismo. Basta ler Max Weber para ver a relação entre ambos. Será fácil entender a raiz do que posteriormente se torna a teologia da prosperidade, no pentecostalismo. Os grandes inimigos hoje são a ausência de conexões, o desconforto que a crise nos traz, a diluição na massa, a instabilidade econômica, o insucesso. Para todas e cada uma dessas dores, haverá uma nova “church”. E está tudo bem! O texto não é uma crítica gratuita. É um ponto de reflexão, de inflexão...

Afinal, para onde vai a fé? Será que ela se desclassifica, que ela se desqualifica? Provável que não. Isso porque a fé vem de Deus, e seu amor nunca se esgota. Fomos feitos para ter fé. Se a gente não crê em Deus, a gente passa a crer em qualquer outra coisa. E como costumamos cantar: "é aí que mora o perigo”. Na falta de algo mais consistente, qualquer coisa serve. Podemos não ser capazes de dar a “César o que é de César e a Deus o que é de Deus” (Mt 22,21).


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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
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