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Acerto de contas

O ódio é o novo normal? Essa é sem sombra de dúvidas uma pergunta que nos vem. Basta ler o noticiário, abrir as Redes Sociais: homicídio, chacina, brigas, acusações mútuas... Será que que tudo isso é culpa da Internet ou nós sempre fomos assim?

Bom, se a pergunta for às Escrituras, vemos que o ódio está já nas primeiras páginas. Na história de Caim, que sente inveja de Abel, seu irmão, e o mata, ocorre o primeiro assassinato da humanidade. Esse é o modo simbólico das Escrituras darem testemunho de que todo “homicídio”, em última instância, é um fratricídio, ou seja, é a morte de um “irmão”.

Não obstante tenhamos por costume apresentar as diferenças entre a perspectiva religiosa em face ao pensamento filosófico e a tradição psicanalítica, podemos identificar similaridades. Também para a psicanálise, o ódio é originário, arquetípico, primitivo em nós. Ele nasce do obstáculo ao “eu” que é o “outro” diante de nós. Esse que nos incomoda com a sua autonomia, sua visão de mundo diferente, seu direito de ser como lhe convém.

Em chave psicológica, o ódio é normal, porque é um constitutivo natural do ser. Ele, num sentido de “identidade” versos “não-identidade”, é o que possibilita na criança o despertar do “eu”. Na infância, primeiro há uma identificação, uma simbiose, em que a mãe, o irmãozinho e o outro são apenas extensões. Depois, em sendo uma sagrado dizer sim à vida, uma pulsão, a criança vai tomando consciência de que não há uma conta exata entre o que ela deseja e a realidade. Tem uma pedra no meio do caminho, no meio do caminho tem uma pedra... Há uma pulsão, um desejo, mas há também um desprazer, um atravessamento, uma falta que o meio, o “outro” lhe traz. 

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Se, na análise, descobre-se que o ódio é constitutivo do ser, a filosofia também não se constrange de dizer, por exemplo, em Schopenhauer que o mundo é “vontade”. E essa é uma dimensão incessante em nós e que tendendo ao conflito. Para o filósofo, somos todos “ovelhas”, não exatamente como as das parábolas da Bíblia, mas cuja a grande alegria ao acordar todos os dias é saber que o lobo comeu a outra.

Nessa perspectiva, se o ódio enquanto desprazer que o outro e o mundo “me trazem” é incontornável, a questão está na “atuação” disso em nós. O que começa com um desconforto, uma briga, pode, ainda mais numa sociedade adoecida, terminar numa chacina. 

Jesus, nesse sentido, relendo o Antigo Testamento no Sermão da Montanha, ensina que o homicídio começa na mente. “Ouvistes o que foi dito: não cometerás homicídio. Eu porém vos digo: todo que tratar seu irmão com ira será réu no julgamento” Mt 5,22. Nossos pensamentos exigem cuidado, pois eles se tornam nossas palavras. Somos responsáveis por nossas palavras, pois elas performam em nossas ações. Avaliemos nossas ações pois elas podem desaguar em crime, castigo, desvios de caráter...  

Seja pela via da análise, da fé ou da filosofia (e que bom se puderem ser as três), será oportuno mirar na busca pela sabedoria que conduz à reconciliação. Que a vida não nos deva nada. O conselho para um existência mais madura é: faça um acerto de contas, não com as pessoas, mas com as circunstâncias que lhe feriram. Volte ao passado curando-se. Isso com a consciência de que o que o desconforto que lhe fez aprender é um preço justo pelo sofrimento experimentado. Encerre essa dívida. Nesse ponto, até Nietzsche e Jesus concordam: tende a terminar muito mal uma vida ditada pelo ressentimento... 


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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
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