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Nem Pai, nem Mestre, nem Mito

‘O fato de que existimos num sopro é uma das verdades mais angustiantes da existência’

A vida humana é carente e precária. O fato de que existimos num ‘sopro’ é uma das verdades mais angustiantes da existência. Somos só por um breve segundo. Somos cadáveres adiados, caniço ao vento. À beira do abismo estamos todos. Ainda que reis, como os mendigos.

Essa angústia diante da existência é um dos sentimentos mais primitivos. Ela é uma vivência que em nós não mente (Lacan). Diante dela, ao que parece, tendemos a buscar a paz, ‘o céu’. Calma, calma. Não vamos nos apressar em dizer que nisso têm razão as tradições religiosas, particularmente o cristianismo, ao pregar que devemos ansiar pelo Reino, pelo Paraíso ou que devemos ser perfeitos e santos para merecer morar nesse lugar em que ninguém sofre, chora ou fica triste.

Não obstante o texto seja de um padre e, por dever de ofício, ele esteja obrigado a ‘vender’ esse produto, iremos a 'águas mais profundas’. Olhando atentamente, veremos que essa busca pelas coisas do ‘alto’, a qual caracteriza o ser humano como “bicho” que se angustia, pode ser facilmente deslocada para lugares mais “baixos”.

Já no tempo de Jesus, vemos, nos fariseus, um risco de fazer desse desejo de ‘ascendência’ uma arapuca. Não obstante o termo ‘fariseu’ tenha uma conotação negativa, o movimento farisaico foi de grande importância para conservação das tradições mais genuínas do judaísmo. Uma fé radical (desde a radix, raiz) é uma coisas boa. A fidelidade às origens e a afeição a princípios são fundamentais para que a mente não seja aberta ao ponto de o cérebro pular para fora (G.K Chersterton), ou de a gente perder de vista o nosso ponto de partida. Religiões são feitas de tradição, ponto e basta. Todavia, se uma opção radical é uma coisa boa, o radicalismo e fundamentalismo não são.

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Os fariseus, nessa perspectiva, diante de um momento de crise, no ímpeto de ‘apressar o céu’ se tornaram ritualistas, gananciosos e hipócritas. Lá onde qualquer movimento fundamentalista que fazer o céu descer, seja com véu e saia ou com passeata e veganismo, teremos uma Babel invertida.

Para aludir, ademais a Dostoievsky, essa fixação na regeneração moral dos fariseus de ontem e de hoje (sejam eles de direita e ou de esquerda) é uma faca de dois gumes. Essa ideia de que o partido, a ‘causa’, a comunidade religiosa, o culto são a própria expressão do ‘céu’ cria escravos e alimenta um orgulho satânico.

Jesus deixa claro que quanto menor a genuinidade, maior o circo. Não é a pretensão de sermos virtuosos, a defesa dessa ou daquela causa que salvará o mundo ou nos fará humildes e genuínos. Ninguém, seja em nome do comunismo ou do céu, é a própria encarnação da “bondade divina”. Ninguém é, de todo, Mestre, Pai, Mito, Guia. Somos aprendizes, filhos, desmentidos, mais ou menos perdidos. “Vós todos sois irmãos”, diz Jesus Mt 23,8.

Se não bastasse essa inclinação, de ontem e de hoje, em se querer construir o ‘paraíso’ com as próprias virtudes, de desejar a ‘extrema pureza’ e de se fixar na assepsia, atualmente, há uma grande tendência em unir ‘farisaísmo’ à ‘teologia do empreendedorismo’. Hoje, como nunca, esses dois devaneios caminham juntos. Há muita hipocrisia moral de mãos dadas com a ilusão de que cada um deve ser ‘empreendedor de si mesmo’, contando com os auspícios do divino, numa ‘teologia da prosperidade’ que prega a ilusão de que os bens e o sucesso é que farão cair o céu.

Falaremos sobre isso em nossa próxima coluna. Essas são cenas dos próximos capítulos.

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
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