Ouvindo...

Times

Declarações em crise

Jonas, assim faz notar as Escrituras, padeceu por sua cabeça dura, pela violência de suas verdades presumidas

Um dos aspectos mais interessantes da literatura bíblica é a narrativa dos profetas. No senso comum, a profecia é entendida como uma arte oculta. Pensa-se que ela se relaciona, antes de tudo, com a capacidade de decifrar o futuro. O profeta, não raro, é imaginado como o “homem” do maravilhoso, do espanto.

Perde-se de vista, nesse senso comum, o que há de mais determinante com relação aos profetas. O que lhe faz ser notáveis não diz respeito, antes de tudo, a seus arroubos místicos. Os profetas não são o que são por serem “super sinceros” ou adivinhos. O dom da profecia, primeiramente, não tem a ver com ela permitir perceber o futuro, mas o óbvio (Nelson Rodrigues). Além de que: quem diz exatamente o que lhe vem à mente não é profeta, é “sincericida”.

Leia também

Jonas e a lição

Um dos profetas mais icônicos das Escrituras é Jonas. Seu nome quer dizer “pomba”. A sua profecia começa com o narrador oculto o chamando de Jonas, filho de amati. Em tradução dinâmica, seria: a “pomba” filha da “verdade”. Isso já que “amati” vem da raiz hebraica “emet”, que quer dizer verdade.

Com seus arrulhos, sua fixação com telhas e ninhos, pombas são animais insistentes. Jonas, assim faz notar as Escrituras, padeceu por sua cabeça dura, pela violência de suas verdades presumidas.

Trata-se de um profeta desajustado desafiado por Deus a compreender uma grande, necessária e atual lição: a realidade é sempre mais do que a soma do parece ser. Eis aí uma regra de ouro para não adjetivar, julgar, sentenciar.

A grande moral da história de Jonas reside no fato de que, ao negar-se a ver com outros olhos os Ninivitas, a personagem estava negando-se ao encontro com uma verdade que residia para além de seus preconceitos e de suas presunções. A ironia dessa passagem bíblica se encontra no fato de que quem está afeito à sua visão de mundo sempre morre pela “boca”. Peixe morre pela boca. Jonas quase morreu pela “boca”.

Eis uma profecia atual para nossos dias, em que há certezas demais. Estamos numa overdose de asneiras ambidestras proferidas por quem é filho das próprias “verdades”. Há muita gente por aí lacrando, fazendo do recorte o absoluto e, com isso, tropeça.

Não. A vida não é simplória. Nela há guerras com conflitos de interesses complexos e obscuros. Lá onde há impulsos obtusos e ideias mal digeridas surgem falas que se vomita e que dão em “m” mais quatro letras. Não, não cabe a nós agir como nos convém, se essa nossa decisão afetar o pacto coletivo pelo bem-estar social. A travessia desse limite implode com toda possível civilidade.

Que as grandes mentoras, diante do ímpeto de emitir opiniões, sejam as perguntas e que o escudo diante dos dardos do afobamento seja o “silêncio”. Sirva-nos, por fim, o conselho da grande Lisa Simpson: se algum dia você estiver diante de uma pessoa e suspeitar que ela pensa que você é um idiota, não abra a boca, pois ela pode ter certeza.

Participe do canal da Itatiaia no Whatsapp e receba as principais notícias do dia direto no seu celular. Clique aqui e se inscreva.

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
Leia mais