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Carnaval: alegria e anestesia

É preciso pensar o Carnaval como uma festa da licença

Padre Samuel Fidelis em uma igreja

Padre Samuel Fidelis

Padre Samuel Fidelis | Reprodução

O carnaval é uma apoteose. Para além dos exageros, trata-se de um momento belo de confraternização no Brasil. Os sons, a vibração, as fantasias, os desfiles, as, já tradicionais, marchinhas. O povo brasileiro arrasa na felicidade.

É preciso pensá-lo como uma festa da licença. É tempo de deixar as fantasias virem à tona. Seja as de quem se assume dionisíaco, deixando que o etílico dê à luz o brilho, as cores, o avesso. Seja as de quem é habitado pelo medo de ser. Gente que, como diria Nietzsche, vive da moral de escravo, se ressente com o prazer, com a afirmação da vida.

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O desejo pinga, dizia Nelson Rodrigues. Escorre pelos poros. Abre frestas. A gente deseja o que não tem nome, o que não é possível. O desejo é sempre cúmplice do pecado, da culpa, da carência. Ele é sócio da falta.

O carnaval, particularmente no Brasil, é a festa de um povo de faltas. Os seus exageros escondem faltas.

Ser brasileiro nos leva a beber. A gente tenta levar e ler a vida no fundo do copo de cerveja. Todavia, como lembra os medievais: “no vinho, a verdade”. Não adianta tentar afogar as mágoas, pois elas sabem nadar e “boiam”.

A verdade é que a existência é precária. A gente tem dificuldades de aceitar que há um elo de amor e ódio entre aquilo que tem nos matado. Não é a rotina que tem nos matado. É a angústia que nos tem causado uma vida cujo propósito se desidratou.

Andam dizendo por aí que um CNPJ não vale um AVC. Sabe-se lá. Nem que seja pela adrenalina, talvez valha. Às vezes, a gente se mata de trabalho por não saber outro modo de se sentir vivo. A questão talvez seja saber se está dando tempo para discernir quanto “custa” e quanto “vale”. Ao fim e ao cabo, a vida é sempre trágica. Termina num vácuo. De um jeito ou de outro somos cadáveres adiados, caniço ao vento, pó e cinza.

A questão é saber se na rota entre o berçário e o túmulo, se, nessa existência tão efêmera e precária, encontramos (ou nos encontrou) um sentido pelo qual dar a vida. A vida só começa quando a gente perde o medo de não viver e apenas vive “con-senti(n)do”. Quem busca ganhar, o tempo todo, sempre perde.

Vive-se melhor com sutileza, com gentileza. A busca incessante pelo prazer “fora” não nos fará mais felizes, mas, ao contrário: dependentes e inseguros. Do mesmo modo, não se vive bem ressentindo o “gozo”. Precisamos de momentos em que a gente se deixa abandonar pela mentira social e dá uma mordida, ainda que de leve, em algo que é imoral, “ilegal” ou engorda.

Seja nos blocos ou em retiro, atravessemos o desejo. Ele precisa de espaço, de “fantasia”, de companhia, de delírio. Caminhando com o desejo, vamos ao encontro da “coisa ausente” que nos atormenta. Aquela que nos faz pular, desconjurar, “massertar”.

Oxalá sejam dias de folia! Que haja conexão e encontro. A diversão do carnaval não nos seja apenas anestesia. Sobretudo para nós, os cristãos.

Para quem crê, a alegria, se verdadeira, é, antes que euforia, um imperativo (“Alegrai-vos” Fl 4,4) e um fruto do Espírito (Gl 5,22). Ela é algo além de narcótico, catarse e euforia. Em última instância, nossa felicidade é motivada pelo encontro que fizemos com Jesus, o Ressuscitado (Jo 20, 20). Como dizia dom Hélder Câmara: “Depois que Cristo ressuscitou, não temos motivos para sermos tristes”.

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
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