Ouvindo...

Times

A vida é tempestade

Por vezes, emoções são rio, por vezes, ‘amar é um deserto e seus temores’.

A vida tem suas tempestades. Existimos num ciclo contínuo de aguaceiro e de carestia. Às vezes, é dia de sol, em que somos aquecidos pela presença. Às vezes, é chuva, em que sentimentos encharcar e inundam. Há dias de nuvens, onde se vê muito menos do que se precisa. Há dias de céu estrelado, onde sobra inspiração. Por vezes, emoções são rio, por vezes, ‘amar é um deserto e seus temores’.

Se repararmos bem, no livro do Gênesis, o Arquiteto do Universo se preocupa em dar ciclo ao movimento das águas. YHWH separa as águas superiores das inferiores (Gn 1, 6-7). Assim, se cria a ordem, as separações que são sempre importantes para que o que é ‘parecido’ não se confunda. Reside aqui uma oculta sabedoria: não é por ser 'água’ que deve estar no mesmo lugar. É sempre um indício de kaos, a incapacidade de fazer distinções.

Leia também

A existência é fluida e efêmera. Panta Rei (tudo passa), dizia Heráclito. Para o filósofo, não é possível mergulhar duas vezes no mesmo rio. Na ‘passagem do existir’, nas águas que constituem a vida, nem o ‘rio’, nem nós somos os mesmos.

Somos feitos de água: hora nuvem, hora rio, hora mar. Em sua peça Tempestade, Shakespeare coloca nos lábios de Próspero: somos ‘feitos da mesma matéria dos sonhos’. Pois bem, brinquemos com as palavras.

A prosperidade, a graça que é o existir, nos seus ciclos de chuva e de carestia, consiste em fazer da impermanência um impulso. Somos feitos da água da chuva, dos rios e do mar. Somos feitos de sonhos que sobem, descem e se revolvem, hora como enchente, hora como calmaria.

A vida é sonho e água. Talvez por isso as Escrituras, que, sendo um Texto Sagrado, são também testemunha do que há de mais singular na alma humana. Insistam nos ciclos de deserto e de chuva.

Solidão, kaos, tumulto, instabilidade. Disso estão cheias as páginas das Bíblia. É, particularmente no deserto e na chuva que Israel experimenta suas maiores transformações. YHWH ensina a Seu Povo que a vida só se desfruta em estado de provisório.

O Salmo 125 assevera que as lágrimas em momentos de deserto, de angústia, de exílio e de transição, com a Graça de Deus, se convertem em torrentes e, essas, mudam a sorte.

A alusão desse trecho das Escrituras é à região árida do Negueb. Durante as chuvas sazonais do inverso, as águas descem da parte alta de Israel e vêm arrastando tudo, numa enxurrada, até desaguar no sul do país, em que está o deserto do Negueb.

O que num primeiro momento é kaos, já que a enchente vem arrastando tudo, acaba sendo uma fonte de prosperidade, uma mudança de ‘sorte’. Isso porque junto com as águas vem a ‘matéria’ orgânica que fará a área desértica se tornar fecunda.

Por isso o salmista diz: ‘mudai a nossa sorte, ó Senhor, como torrentes no deserto (Negueb). Os que lançam as sementes entre lágrimas, ceifarão com alegria’ (Sl 126).

Aprendamos das nuvens! Não me parece que o universo lamente suas estações. Talvez seja a experiência de vida que o tenha tornado imune a ansiedades. Reparo que o céu não se constrange de exibir a beleza das contradições do vento, da chuva, da impermanência. Estejamos convencidos: nossas almas têm muito a aprender com a nuvens. A começar, de como fazer de suas lágrimas, fecundidade.

Participe do canal da Itatiaia no Whatsapp e receba as principais notícias do dia direto no seu celular. Clique aqui e se inscreva.

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
Leia mais