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Enchente: boiando a cara de pau

No caso das chuvas recentes, políticos assumem o palanque para terceirizar a culpa

Foto do Padre Samuel Fidelis, no interior de uma igreja

Terceirizar a culpa não é atitude de adultos

Padre Samuel Fidelis | Reprodução

Um dos sinais claros de imaturidade é a transferência de responsabilidade. Quando as avós dizem que ser adulto significa aprender a limpar o ‘bumbum’, elas estão cobertas de razão. É próprio das crianças terceirizar a fralda, nós adultos temos que nos haver com nossas cacas.

Observe, não é que a gente deixa de fazer besteira quando cresce. É que, quando maduros, passamos a arcar com o preço das nossas escolhas. Aliás, ser adulto significa bancar também que não se escolheu. Só ‘adolescentes’ identificam maioridade com: ‘fazer o que me dá na telha’. Quem já cresceu sabe que telhados todos temos de vidro. Quem amadureceu entende que a vida requer contorno do imponderável, dissimulação do acaso, graxa na cintura.

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Veja, por exemplo, como no caso dessas chuvas, os políticos assumem o palanque para ‘terceirizar a culpa’. Preste atenção com que facilidade todo mundo passa a entender de urbanismo e políticas públicas sem fazer a mínima ideia de em quem votou ‘no verão passado’ e do quanto dessas enchentes tem maus hábitos.

Nossa cidade debaixo d’água. Nossa responsabilidade sobre as inundações submersa. Seguem boiando as caras de pau.

Nosso país é há tanto tempo o ‘país do futuro’ que se tornou uma criança que esqueceu de crescer. A gente não aprende, não entende quanto de nós tem em nossos ‘nós’.

Nos falta senso do público. Esse entendido não como o que é dos políticos. Até mesmo porque, como lembrava Charle de Gaulle: ‘a política é uma coisa muito séria para ser deixada aos políticos’. Nos falta o senso do público, que tem a ver com a consciência do ‘nosso’, do ético, da responsabilidade.

Penso que nossa anestesia diante do caos advém de nossa falta de amor. Nos falta amor pelo país, pelo estado, pela cidade. Sem amor, sem senso de pertencimento, não há cuidado.

O principal problema do Brasil é a corrupção. E essa em algo muito mais profundo do que nos políticos. Em sua etimologia, a palavra corrupção indica: cor (coração) + ruptere (rompido). O coração do brasileiro, desde de há muito, está rompido. Estamos desintegrados, anestesiados. A nossa sensibilidade vasou pelas frestas causadas pela decepção.

Os escândalos ambidestros, a falta de representatividade, o Estado caro e ineficiente são apenas os sintomas de um amor que desidratou. Somos assaltados por impostos, mas consentimos no estupro, porque nos falta senso de pertencimento, de responsabilidade.

Daqui há alguns dias, dançaremos sobre os bueiros que agora nos inundam. Sambaremos sobre rios sufocados. Algo contra o carnaval? Mas é claro que não! Ele é uma bênção, uma pausa necessária para não perder o réu primário com o chefe (ou não).

Nosso protesto é contra o ‘abandono de incapaz’, contra a negligência do respeito pela cidade. Sem respeito pela pólis, não há amor. Sem amor, todo o entusiasmo é ‘ópio’ e anestésico.

Somos responsáveis por nossa ruína. E a falta de educação e de civilidade nos mantém obtusos, nos lança no colo de falsos pastores, alimentando ciclos de ignorância e de domesticação.

O tempo presente é de densas nuvens. Estamos sob enchentes de falatório e com carestia de perguntas. Todo mundo comenta e, com seletividade, se indigna. Ninguém sabe o que fazer.

É hora de despertar, lembra o Apóstolo, estamos dormindo! A fé nos ajuda a estar atentos, conscientes e responsáveis sobre nossa maneira de proceder, procurando discernir como tirar proveito do mau tempo presente, destes dias que são maus (Ef 5,14-15).

Se eu não for por mim, quem será? Se eu for só por mim, que serei eu? Se não agora, quando? (Hillel)

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
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