Ouvindo...

Times

Dengue, serpentes: picam e matam

Um dos ícones bíblicos dessa ambiguidade que reside no símbolo, na linguagem, na palavra é a serpente

A gente sempre simboliza. A “coisa” diante de nós nunca é exatamente a “coisa”. Nossa percepção do mundo é: hora lupa, hora viseira. Há sempre algo de nossos traumas e fantasmas pronto a emergir, sobretudo, quando estamos diante de situações limite. Se Freud nos alerta que nossa consciência tem mais de porão do que sala de estar, Lacan, postula que o que vem dos pontos mais obscuros da alma, e que se repete como sina, tende a se manifestar numa palavra, numa pessoa, num lugar, num símbolo. O que a gente diz nunca é “transparente”. Há sempre algo opaco, um intertexto, um pretexto, um interdito.

Um dos ícones bíblicos dessa ambiguidade que reside no símbolo, na linguagem, na palavra é a serpente. Na Bíblia ela tem, já nas primeiras páginas, destaque na vilania. Esse animal deixa pouco à explicação: insinuador, rasteiro, de beijo incandescente, de língua bifurcada. A metáfora do texto bíblico é que todos os animais, a seu modo “falam”, mas a particularidade da serpente é dizer desdizendo. Ela possui uma boca, uma intenção, uma divisão, mas sobretudo em duas línguas.

A gente está e deve estar preocupado com a dengue! Todavia, serpentes também picam. Mas calma! Antes de olhar para essa pessoa aí do lado, pensar na cunhada ou mandar uma indireta para vizinha, sejamos conscientes de que essa “serpente” também nos habita.

No livro do Êxodo, livro da saída, do caminho, o povo murmura continuamente. A tendência é estacionar no lugar da vítima, em que a culpa é do outro e em que o passado é nostalgia. YHWH ordena a Moisés: “diga ao povo que marche” (Ex 14,15).

Quando persistem as reclamações, e Israel insiste em amaldiçoar o destino, com um dizer que “mal-diz” , YHWH manda serpentes para picar o povo. A descendência de Abraão é confrontada com os próprios conflitos, deve haver-se com a própria ambiguidade, com as próprias palavras apressadas, com a própria doença.

O Senhor age por misericórdia, sua ira dura apenas um segundo. Vencido sempre pelo amor que fere e cura (Dt 32,39), age com a bondade que permanece a vida inteira (Sl 30,5). YHWH manda então que Moisés, seu general-cirurgião, construa uma serpente de bronze e a coloque numa haste. Assim, todos os que forem picados, olhando para ela, ficariam curados (Nm 21,4-9).

Que diremos dessa passagem simbólica e emblemática? Qual o antídoto contra serpentes? Claro: olhar-lhe nos olhos! O soro antiofídico é feito com base na cepa do veneno que podia matar, mas, ao ser isolado, produz “anticorpos”.

Não só a Bíblia tem fascínio pelo enigma das “serpentes”, mas também a medicina. Essa faz delas seu símbolo, no Caduceu. Vendo-o, todos nos lembremos, em nossas enfermidades no corpo e na alma, que o primeiro passo da cura é aceitar o que faz adoecer. Sirva-nos o sábio e bom conselho de Hipócrates, pai da medicina: “quando se dispuser a curar, a primeira perguntar a fazer é se essa pessoa está disposta a abrir mão do que a faz adoecer”.

Com serpentes nunca somos resolvidos. Ninguém se antecipa a mordidas. Não há vacina contra “serpentes”. Não existe quem esteja bem resolvido, sobretudo, se o assunto for sexo, poder ou dinheiro. Se há uma coisa que o êxodo da vida ensina é que existimos bifurcados e num desequilíbrio: entre o que se diz e o que se escuta, entre o que se pretende e o que realmente se faz, entre o que era para ser beijo e termina sendo picada e mordida.

Faz arder, contorcer, quase liquida. Mas, com “soro”: cura...

Participe dos canais da Itatiaia:

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.
Leia mais