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Falta um ano para as Olimpíadas Rio 2016. Vale a pena?

Recebi um material muito interessante sobre os Jogos Olímpicos Rio 2016 no Brasil e gostaria de dividir com os amigos. A Universidade...

06/08/2015 às 04:21

Recebi um material muito interessante sobre os Jogos Olímpicos Rio 2016 no Brasil e gostaria de dividir com os amigos.

A Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo está entre as 100 melhores instituições de ensino da América Latina. Para comentar os temas, Anderson Gurgel, professor de Comunicação Esportiva da Universidade Presbiteriana e estudioso da área.

Daqui exatamente a um ano começam os Jogos Olímpicos Rio 2016. A maior celebração da humanidade acontecerá pela primeira vez no Brasil e no território sul-americano. Para se ambientar nesse megaevento é fundamental entender os fatos que o antecedem, além do seu percurso na dimensão econômica, política, social e esportiva.

1. O que é uma Olimpíada?

Em um país dominado pela cultura do futebol e pelo modelo da Copa do Mundo, as Olimpíadas trazem diferenças em formato, em variedade esportiva e também em cultura.

A cultura do Olimpismo, o embate entre o amadorismo tradicional e o crescente profissionalismo dos atletas e a discussão sobre o fair play são temas fortes no ambiente olímpico.

Outro aspecto interessante e que pode encantar a muitos é a simbologia olímpica, com a tocha, a pira, os anéis, o lema olímpico, a própria histórica das Olimpíadas e tantos outros elementos que dizem pouco ao público em geral.

O sentido de “festa da humanidade”, a concentração de culturas e povos em um mesmo local, por um período restrito e para praticar esportes variados também é um desafio para organizar e para acompanhar tanto como torcedor quanto como mídia de cobertura de evento.

2. Vale a pena ser sede de uma Olimpíada?

Pergunta controversa, pode ter respostas positivas e negativas. Inegavelmente, os Jogos Olímpicos geram um foco de atenção planetária sobre os locais onde se realizam. Marcas da sua realização podem durar muito tempo, gerando pontos de visitação e mudança de percepção para os locais onde eles foram realizados.

Há casos notáveis de êxito na realização das Olimpíadas, como Barcelona, que até hoje tem sua imagem associada ao megaevento. Há também exemplos problemáticos, com os Jogos de Montreal, de 1976, e Atenas, de 2004.

Os gastos com os Jogos do Rio, de iniciativa pública e privada, já se avizinham a 38 bilhões de reais. Uma boa parte está alocada em obras de infraestrutura urbana, mas mesmo assim, o tema é controverso. Contudo, não se pode ignorar que o custo de se fazer jogos olímpicos é sempre alto, independente da sede onde se realizam.

3. Como os Jogos Olímpicos se tornaram megaeventos?

A natureza dos Jogos Olímpicos é de megaevento, por envolver inúmeros esportes, milhares de pessoas e culturas do mundo todo em poucos dias e num único lugar. Contudo, o sentido mais atual de “megaevento” vai além dessa natureza complexa de realização da competição. Tem a ver também com os imensos recursos econômicos que precisam ser alocados. E mais: envolvem o agendamento social e político que o megaevento gera na sociedade e na opinião pública.

Contudo, o ponto central que abarca a ideia moderna de megaeventos acontece, fundamentalmente, pelo seu poder midiático. Passa pela capacidade de envolver o máximo de pessoas no consumo de uma atividade telecomunicacionalmente, ou seja, por meio de sua transmissão midiática. Poucos terão acessos aos locais de disputas dos jogos, mas “estarão neles” a partir da midiatização das competições e eventos. O sucesso da gestão dessas imagens é, em essência, o sucesso dos megaeventos, com é o caso de uma Olimpíada.

4. Vale a pena gastar tanto para ser sede de uma Olimpíada?

Realizar uma Olimpíada é sempre custoso. Não foi diferente em Pequim 2008, em Londres, 2012, e não será em Tóquio, em 2020.

A discussão será justamente sobre os propósitos de se realizar tal feito e sobre como se dá a gestão desses recursos.

Por isso, quando se fala de um megaevento esportivo, vai se falar em matriz de responsabilidade, governança, boas práticas e legado. Este, inevitavelmente, é um ponto polêmico para qualquer megaevento deste tipo.

Há inclusive cidades que começam a abandonar projetos de sediar Olimpíadas – como Boston, Estocolmo e Roma, etc. – pelo entendimento de que há outras questões mais urgentes na agenda local.

O Rio de Janeiro, por questões envolvendo os problemas no modelo de gestão do projeto e dos recursos, vai lidar com isso durante e até depois da realização das Olimpíadas.

5. O Rio 2016 deixará um legado?

Sim, deixará. Mas para se discutir isso, é fundamental ir mais a fundo. Há que se entender as várias dimensões de legado que existem. E, inclusive, que existe também o legado negativo com grupos sociais que acabam, por consequência, sendo perdedores.

Para saber qual é o legado que o Rio 2016 deixará cabe associar o projeto e as pretensões da candidatura com o que efetivamente está sendo feito e a que custo.

Não se pode negar, ainda, que o legado também tem um escopo de amplo impacto. Um exemplo é o caso de Itaquera: efetivamente a construção da Arena Corinthians mudará o entorno? Ou seja, alguns resultados podem vir tardiamente ou em um tempo mais longo, daí a complexidade do tema.

6. Mas como entender o que é legado de uma Olimpíada?

A tendência é pensar o legado sempre associado a arenas e infraestrutura. Sem dúvida, essas frentes são fundamentais para isso seja discutido. Mas, além delas há outras: há legados de infraestrutura direta e indireta no mobiliário urbano; há legados de projetos e gestão; de cultura e mudanças de hábitos; de conhecimento científico e capacitação profissional e, por fim, há legados de imagem e de percepção midiática.

7. E o Pan deixou algum legado para a realização do Rio 2016?

Os Jogos Panamericanos Rio 2007 são um bom exemplo da dificuldade em se dimensionar o legado real em megaeventos. Por um lado as despesas para a realização dessa competição tradicional nas Américas foi altíssimo, na ordem de mais de 5 bilhões de reais. Esses valores foram absurdos em relação ao projeto que não previa sequer o gasto de 1/5 deste valor. Por outro lado, o mesmo projeto foi sendo modificado e crescendo ao longo do processo, o que foi usado para justificar os valores. Os problemas na gestão dos recursos financeiros foi o ponto mais negativo do Pan 2007.

Por outro lado, não haveria Rio 2016 sem o Pan 2007. Foi a realização do evento, sem grandes problemas e num clima amistoso tipicamente brasileiro que permitiram que a cidade do Rio de Janeiro almejasse ser sede olímpica.

8. Como está a organização do Rio 2016?

Um megaevento como o Rio 2016 é complexo. Há partes do projeto prontas – a menor parte, é claro, como o Maracanã e o Sambódromo. Há outras em ritmo acelerado, como a revitalização do Porto. Há ainda outras preocupantes, como parte da infraestrutura e também de locais de competição, com o campo de golfe. E, por fim, há lástimas como o naufrágio do projeto de despoluição da Baia da Guanabara.

A tendência é que o conjunto da obra para as competições fique pronta, mas no famoso jeitinho brasileiro, com correria e prazos apertados.

9. Qual o impacto que o evento deixará para a cidade?

O Rio de Janeiro que emerge da Olimpíada será diferente. Isso já se percebe ao longo do processo que começou com a candidatura e com a conquista do direito de ser sede em outubro de 2009.

Aumento da visibilidade internacional, fluxo de turistas e eventos são alguns pontos.

Projetos ousados começaram bem, com o das UPPs, mas se encontram em momento de crise e críticas.

Há mudanças urbanísticas que precisarão de mais tempo para análise, como as mudanças na região portuária e na região da Barra da Tijuca, onde se dará boa parte das competições.

A tendência é analisar o impacto urbanístico e social do Rio 2016 “por partes”, com algumas ações exitosas e outras, não.

10. Quem são os ganhadores do Rio 2016?

Se o evento for mais positivo que negativo, a cidade em geral será uma ganhadora, pois ela já é bastante vendável no cenário internacional e vai ganhar muita exposição no ano olímpico.

Mas, efetivamente, os grupos que mais ganham com megaeventos como uma Olimpíada são os ligados à construção civil, ao mercado imobiliário, ao turismo e hotelaria, etc.

11. Há perdedores?

Sim, sempre há em megaeventos esportivo desse porte.

Grupos de direitos humanos questionam a forma como foram feitas as remoções de comunidades ilegais em regiões reclamadas para o projeto Rio 2016.

Em geral, a população mais carente perde muito, pois as regiões revitalizadas ganham valor de mercado e se tornam inacessíveis a esse público. A tendência, por exemplo, é a troca de cortiços no centro por prédios de alto padrão.

Sem boa gestão, isso leva a perdas ambientais também, pois aumenta o deslocamento urbano de grupos que trabalham no centro e moram nas periferias.

12. Como está a gestão ambiental do Rio 2016?

Este tema deve ser um dos pontos de estresse para o Comitê Organizador do Rio 2016 a partir de agora. Vai ser difícil para a mídia e turistas internacionais entenderem a beleza do Rio de Janeiro tão mal cuidada.

O fracasso do projeto de despoluição da Baía da Guanabara expõe uma das maiores perdas do projeto olímpico do Rio de Janeiro. Uma cidade de belezas naturais tão pujantes teria com a limpeza das águas o seu maior legado humano, social e ambiental. Mas, por outro lado, também o mais difícil de conseguir – o que explica o fracasso político da iniciativa.

13. Do ponto de vista do marketing, como está o trabalho do Rio 2016?

Ainda incipiente. A contaminação do ambiente político prejudica a preparação midiática dos jogos. Há um risco de se repetir no Rio 2016 o que aconteceu na Copa do Mundo de 2014. O pessimismo prejudicará as ações de marketing das empresas parceiras, diminuindo o poder de geração de negócios da primeira olimpíada sulamericana.

Do ponto de vista do Comitê Organizador, as ações estão sendo feitas com competência e dentro dos parâmetros internacionais, com boas campanhas e boas estratégias de relacionamento com o público via redes sociais.

Mas dá para ir além, buscando ações institucionais e mercadológicas mais inovadoras para compensar os desgastes que marcarão esse período de um ano para os jogos.

14. Do ponto de vista comunicacional, como está o trabalho do Rio 2016?

Fundamental para a gestão e para o marketing, a comunicação será essencial na preparação para o Rio 2016.

Um dos focos estratégicos deve ser falar diretamente com o público, usando redes sociais. Nesse sentido, o projeto que está sendo desenvolvido mostra um caminho.

Em termos de ações com mídias tradicionais, o foco deve ser explicar a complexidade de se fazer uma Olimpíada. Esse é o único caminho para reduzir a desinformação e comparações infelizes ou pouco efetivas com Copa do Mundo, por exemplo.

Em um país arraigado no futebol, o enfoque para se explicar o olimpismo será fundamental para o êxito de opinião pública do Rio 2016.

15. E sobre medalhas, quais as perspectivas?

Este é outro ponto polêmico, mas fundamental para a percepção pública da Olimpíada.

Como o Brasil não é naturalmente uma potência olímpica, estão sendo feitas ações variadas para que o país alcance bons resultados no Rio 2016, ficando na elite da competição.

Para o público médio e para grande parte da mídia isso é o que importa – ainda que isso traga boa parte da ideia do olimpismo, no qual o importante é competir.

Alguns bons resultados estão sendo alcançados por atletas brasileiros em competições internacionais, o que deixa acesa a chama de ter bons resultados nos jogos.

Mas a pauta a ser investigada é mesmo o potencial que esses jogos têm para deixar um legado esportivo ao país, com espaços de treinamento que contribuam para o Brasil se consolidar com um país de múltiplas culturas esportivas.

16. Como deve ser o envolvimento do público com o evento?

Ainda é incipiente, mas deve crescer. O exemplo da Copa do Mundo mostra isso.

Contudo, Olimpíada não é somente futebol, o que exige grande esforço da indústria esportivo-olímpica para que a penetração pública das mais variadas práticas vá além das suas tribos regulares.

Seria, sem dúvida, um grande resultado do Rio 2016 mostrar a novas gerações e públicos práticas tão diversas como Badminton, Esgrima, Golfe e Tiro.

Contudo, deixar de ser uma nação do futebol – e, por consequência, somente dos esportes coletivos e com bola – é um desafio tão grande como o que era despoluir a Guanabara. Tomara que, nesse quesito, o resultado seja melhor que na questão ambiental.

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