José Lino Souza Barros

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Marido desempregado

21/12/2019 às 01:13
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Ouça a crônica de Nelson Rodrigues na voz de José Lino

Chegou em casa e arriou na cadeira, num desmoronamento total. Com os olhos marejados, gemeu:
---Imagina! Imagina!
- Que foi? Conta!
E ele, já chorando:
---Fui despedido!
A mulher sentou-se, também. Com o prato na mão, atônita, murmurava:
---Despedido por que, meu Deus?
Já sem paletó, Eduardinho ergueu-se. Andava de um lado para outro, numa amargura medonha. Explicou, a seu modo, o drama da demissão inesperada e brutalíssima:
---Perseguição, compreendeste?
---De quem?
---Do subchefe. Andava de marcação comigo. E hoje, já sabe: sou chamado e recebo o bilhete azul!
Então, em casa, na sala de jantar, teve acesso de furor inútil, de ódio retardatário e inofensivo:
---Eu devia ter-lhe metido a mão na cara! Sujeito cretino!
Virou-se para a mulher, quase feroz:
- E agora? Como vai ser?
Carmem foi sintética e vaga:
---Deus é grande!

O emprego

Mas o fato é que estavam arrasados. Eduardinho afundou na poltrona entregou-se a um silêncio obtuso, incapaz de uma frase, de um raciocínio, de uma iniciativa. Quando Carmem o chamou para o jantar, estrebuchou, como diante de uma blasfêmia:
---Não quero! Não quero!
A mulher não insistiu. Numa tristeza de todo o ser, tirou a mesa, guardou os pratos e veio sentar-se perto do marido. Solidária na falta de apetite, não tocara na comida. E, agora, em silêncio, assombrava-se com a depressão de Eduardinho. Ele era um fraco de vontade, de caráter. O desemprego no terceiro mês de casamento esmagava-o como a ultima das desgraças. Então, impressionada, Carmem procurou sacudi-lo; chamou-o:
---Olha.
Resmungou:
- Que é?
Tomou entre as suas, as mãos frias do marido. Aventurou: "Sabe qual o golpe?" Ele tremia de desespero:
- Fala.
E ela, depois de vencer um escrúpulo.
---Que tal eu ir falar com o teu chefe?
Deu um pulo. Foi grosseiríssimo.
---Você é maluca? Bebeu?
Admirou-se, chocada:
---Por que?
Espetou o dedo no peito da mulher.
O meu chefe é um doente, ouviu? Um tarado!
- Como?
Exagerou:
---Não respeita nem poste! Dá em cima de todo mundo! E se você aparecer lá, sabe o que é que vão dizer? Que fui eu que mandei e que eu estou nessa marmita.
Bateu no próprio peito: "Graças a Deus, eu tenho vergonha na cara!"
Carmem suspirou:
---Paciência.

O pão que o diabo amassou

E começou para o casal uma fase negra. Mesmo quando Eduardinho tinha emprego, viviam muitíssimo mal, economizando barbaramente. Carmem não podia nem pensar em empregada. De qualquer maneira, porém, vivia. Sem o emprego, passaram a comer o pão que o diabo amassou. Eduardinho podia arranjar outro, claro. Mas era um acovardado, um fraco, um homem sem ação, sem iniciativa. Vivia dizendo para a mulher: "Vamos morrer de fome!" No dia em que acabou o último centavo da indenização, virou-se para a Carmem. Perguntou, heroicamente:
---Por que é que você se casou comigo? Por que não escolheu outro?
Carmem balbuciou: "Que bobagem!" E, então, diante da mulher assombrada, o pobre-diabo teve uma pavorosa crise de choro. Mergulhou o rosto nas duas mãos e soluçava como uma criança. Crispando-se ante essas lágrimas de homem, ela pediu: "Não chora!" Eduardinho saltou, num repelão furioso:
---Choro, sim! E por que não hei de chorar? Por que?
Ela baixou a voz:
---Podem ouvir!
Berrou:
---Que ouçam! Que vão pro raio que os parta! E olha: esse negócio de homem não chorar eu considero uma imbecilidade!
Chorou mais alto, chorou mais forte, como se quisesse oferecer à vizinhança o espetáculo de sua dor. Quando acabou, Carmem pôs-lhe a mão no ombro: "Quer ou não quer que eu fale com seu chefe?"
Teve uma explosão de vencido:
---Nunca!
De noite, no quarto, desabotoando a camisa, fez ironia: "Acho as mulheres gozadíssimas!" Carmem virou-se, espantada:
- Por que?
Eduardinho riu, amargo.
---Mas evidente! Você pergunta se eu quero que você fale com meu chefe. Queria o que? Que eu dissesse que sim? Espera lá!
Coçando a cabeça com um grampo, ela se justificou:
---Estou no meu papel. Afinal, devo ouvir meu marido!
Explodiu:
---Que mania de pensar pela cabeça dos outros!
---Você queria que eu fosse sem dizer nada?
---Deus me livre! Tenho brio, ora bolas! Mas enfim!...
Deitou-se. Dez minutos depois, sacode a mulher que já cochilava:
---Quer saber de um negócio?
---O que?
---Sabe que essa história de vergonha atrapalha?
---Como?
Explicou:
---Por exemplo: se eu fosse um sem vergonha, como há muitos, e mandasse você lá, era tiro e queda. O meu chefe quando te visse, jeitosa, recém-casada, era capaz de me readmitlr, dobrar o meu ordenado e outros bichos. Aposto!
A mulher, ao lado, calada, ouvia. Eduardinho concluiu:
---Infelizmente, eu tenho vergonha, tenho brio.

Vitória

No dia seguinte, tornando café com o marido, Carmem suspirou: "Qualquer dia desses, eu não te digo nada e vou falar com teu chefe." Mastigando pão sem manteiga, ele fez questão de frisar:
- Isso é contigo. É problema teu. Mas não quero saber de nada. Ao mesmo tempo, estou com a corda no pescoço e não posso impedir que minha mulher me salve.
Depois do almoço, Carmem pôs seu melhor vestidinho, um estampado que lhe dava um ar quase de menina. O marido que, nervoso, acompanhava a mulher se arrumar, indagou: "Já acabou aquele perfume?" "Tem um restinho." Grave, aconselhou:
- Põe! Põe!
A partir de então, todas as tardes ela saía, à mesma hora. O marido continuava insistindo na tese de que a vergonha atrapalha, de que a vergonha é um trambolho na vida de qualquer um. Gemia: "Ah, se eu fosse um sem vergonha!' Até que, uma tarde, ao voltar, Carmem avisou, sintética:
---Mandaram um recado para você aparecer lá, amanhã.
Sem um comentário, mas comovido, beijou a mulher na testa.
No dia seguinte, estava no escritório, cedinho. O subchefe, o mesmo que o despedira, teve de readmiti-lo. Por outro lado, comunicou-lhe que ia ganhar tanto, ou seja, o dobro do que ganhava antes. De tarde, Eduardinho voltou eufórico. Tirou o paletó, arregaçou as mangas e disse: "Acho que agora podemos comprar a geladeira." Mas quando se inclinou para beijar a esposa, ela foi sumária: "Não me toque nunca mais!" E avisou, com um olhar frio:
---Eu traí você com o outro. Mas não vou trair o outro com você.


Sonoplastia: Ronald Araújo

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