Ouça a rádio

Compartilhe

Venha para o Brasil, De Falco!

Venha para o Brasil, De Falco!

O naufrágio de um navio sempre será notícia no mundo inteiro, especialmente se mais de 4 mil pessoas estiverem a bordo. No entanto, para fazer jus à máxima de que sempre há algo de positivo a se extrair do pior fato possível, eis que aparece um exemplo de cumprimento do dever, de honradez, que mexe com nossos nervos. O diálogo entre o comandante da Guarda Costeira, Gregório de Falco, com o capitão do Costa Concórdia, Francesco Schettino, é uma dessas peças históricas que podem mudar os rumos da humanidade. Daqui por diante, toda vez que um ser humano se apequenar diante de tão gigantesca responsabilidade ou se julgar mais esperto que os demais, seu inconsciente vai captar a bronca de um italiano em seu compatriota. De todas as incontáveis definições de ética que já ouvi a melhor é a mais simples: “É o que a gente faz quando ninguém está vendo”. Schettino deve ter imaginado: se há um caos generalizado, salve-se quem puder e eu, bonitão, privilegiado pela vida, me mando e depois vejo no noticiário o que aconteceu. De Falco, desses seres cada vez mais raros, foi irretocável na repreensão: primeiro, avisou que estava gravando, depois falou dois ou três palavrões (para desabafar) e, por mim, mandou o infeliz voltar para cumprir seu dever, ser solidário ainda que à força com aquela multidão desesperada. Como faz falta um De Falco no mundo de hoje. Lá mesmo, na Itália, um grupo de pesquisadores fez trabalho de 25 anos para entender as diferenças do Norte (rico) para o Sul (pobre). E, entre as conclusões, sentenciaram que os habitantes da parte desenvolvida têm mais espírito de comunidade... Por exemplo, se há um incêndio na casa de um deles, os vizinhos correm a ajudar enquanto, no Sul, diante das primeiras chamas, a vizinhança trata de aumentar seus estoques de água para o caso de o fogo se alastrar. Não é diferente entre nós, neste Brasil tão rico, poupado de grandes desastres naturais, mas que, vez por outra vê milhões e milhões de filhos sofrendo, ora por chuva, ora por seca, quase sempre por pura falta de prevenção, de educação, de cuidado. Já pensou se houvesse um De Falco entre nós para descobrir o verdadeiro culpado pela queda dos prédios no Buritis e dar uma dura nesse Schettino das montanhas? E se a gente pegasse o Schettino da BR 381, do anel rodoviário, do trem metropolitano de Belo Horizonte? “Ah, se eu te pego... Delícia!”.