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Um mundo de estranhos

Na semana passada, em três ocasiões, me assustei com o que está ao meu redor.

17/03/2014 às 09:33

Na semana passada, em três ocasiões, me assustei com o que está ao meu redor. Na TV, vi um comerciante reclamar que, não satisfeito por assaltá-lo, o bandido avisou que voltará e, desde então, toda vez que ouve barulho de moto, entra em pânico; na academia, a fisioterapeuta contou de um assalto, no começo da noite, quando estava se dirigindo ao carro após o trabalho e da tristeza de saber que, doravante, jamais terá tranquilidade para andar numa rua movimentada da Savassi; na Avenida do Contorno, em Lourdes, eu esperava no congestionamento com a janela do carro aberta e a simples passagem de um cidadão por entre os veículos me deu baita susto. A conclusão é óbvia: estamos com medo do outro, do diferente. Qualquer pessoa, especialmente se for jovem, cabelos coloridos, de bermuda, boné e chinelo de dedo, tornou-se uma ameaça em potencial. Que situação! Aonde vamos parar?

Lembrei-me de um clássico, “Um mundo de estranhos”, texto de Jane Jacobs, americana que não era jornalista ou engenheira, mas, escritora e ativista política e fez história ao defender usos mais humanos das cidades. Dizia, entre outras coisas, que “ uma calçada e uma rua interessantes formam uma cidade interessante e se elas parecerem monótonas, a cidade parecerá monótona. Agregados às calçadas, estão os edifícios, os espaços públicos, que dão significado a ela e além destes, são as situações que se criam sobre ela que trazem suas referências e características. As calçadas se transformam em balés de pessoas, situações e atividades. O balé da boa calçada urbana nunca se repete em outro lugar, e em qualquer lugar está sempre repleto de novas improvisações”. 

Em outro livro, “Morte e Vida de Grandes Cidades”, ela defende a dinâmica das ruas das metrópoles, sempre cheias de desconhecidos, ou seja, defende a alta densidade e ressalta que os urbanistas tinham que tê-la à vista, estudando o objetivo de fazer as pessoas se sentirem seguras diante dos desconhecidos, pois, quanto mais olhares uma rua recebe, mais segurança ela terá. Mesmo os bairros considerados tranquilos podem se tornar perigosos e não é um guarda municipal que muda as ocorrências na rua.”

É incrível como esta senhora, já falecida, falou e escreveu, em 1950 e a partir de estudos em cidades americanas, o que estamos vivendo hoje. Melhor, sofrendo na carne. Ela insistia que se as calçadas estão cheias, a gente tem mais sensação subjetiva de segurança, pelo simples fato de saber que outros também estão na mesma situação. Claro que é isso. Ou não é assim, por exemplo, no interior do Mercado Central? Mas, para nossa tristeza, graças à indiferença dos governos, a crescente impressão da impunidade e a impotência das forces de segurança, estamos nos sentindo abandonados e, mais que isso, com mêdo da multidão. Com medo de gente. Como nós.

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