Eduardo Costa

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Canalhices que matam

tragédias como essa do Córrego do Feijão só doem nas pessoas verdadeiramente boas

28/01/2019 às 08:50

FERNANDO MORENOFUTURA PRESSESTADÃO CONTEÚDO

O que mais mata em Córrego do Feijão não é a lama. Nem os escombros. É a dúvida cada vez mais frequente naqueles que, por força do ofício, acompanham por décadas a relação dos políticos com o poder econômico: são autoridades ou canalhas? A generalização deve sempre ser evitada e quem é responsável não pode dizer que todos os homens públicos são safados ou que todos os empresários só pensam no lucro.

No entanto, chega uma hora em que o cronista, cobrado pela consciência e indignado diante de tanta podridão, precisa dizer, em nome de Deus, àqueles que neste acreditam: tragédias como essa do Córrego do Feijão só doem nas pessoas verdadeiramente boas, que não conhecem os bastidores do poder. Ali, o escárnio é irmão gêmeo da hipocrisia e o que importa, diante do mau feito, é fingir sofrimento, mobilizar os padrinhos, passar a bola adiante e rezar para que um clássico Atlético e Cruzeiro ou outro fato importante faça o povo esquecer.

Como gostaria de acreditar no que essa gente engravatada tem falado! A começar pelo prefeito, que chegou 24 horas depois. Ou, pelo presidente da República, que veio rápido, mostrou-se solidário, mas não desmentiu seu conceito de que “a fiscalização dos xiitas” tem de acabar e dar lugar ao empreendedorismo. Mais honesto foi seu vice, o general que disse logo: “Não podem por na nossa conta essa aí”. Risível foi a nota da Assembleia Legislativa de Minas, de que se solidariza e vai criar uma comissão... Comissão? Criaram uma, depois de Mariana, que deu em nada. E quando um projeto sério, construído com ambientalistas, técnicos e promotores foi a apreciação, Gustavo Correa pediu vistas, seus pares Gil Pereira, Tadeu Filho e Tiago Cota mandaram para a lata de lixo. Reparem que esse Tiago, filho de um Celso, que já presidiu a Associação Mineira de Municípios, é de Mariana e nem depois de ver seus eleitores chorando, tomou jeito.

O presidente da Comissão de Minas, João Vitor Xavier, pediu para gravar e vaticinou: “Teremos outras tragédias”.

O futuro presidente da Assembleia é do Partido Verde, Partido Verde - ele foi secretário do Aécio, do Anastasia, do Pimentel e agora foi o escolhido por Zema. Ah, o líder de Zema na casa é um tucano... Mas não foi para termos o Novo que abrimos mão de Anastasia – sabidamente mais preparado – e escolhemos com 70 por cento dos votos um empresário que sequer sabia o que quer dizer Funed?

Zema tá de doer. Lamentou a tragédia e disse que vai punir com rigor. Mas, ele não manteve o secretário de Meio Ambiente de Pimentel? Exatamente o que, em  dezembro de 2017, reduziu as etapas de licenciamento das barragens, permitindo à Vale aumentar o risco em  Córrego do Feijão? Mas não foi o secretário, o único mantido por Zema da turma do PT, que em dezembro último rebaixou o risco da mesma barragem? 

Vamos ser claros: o que está por trás dessas mortes de Brumadinho é o escandaloso gosto dos humanos por dinheiro, muito dinheiro, poder, muito poder, mais dinheiro. Empresas em nosso país desconhecem solenemente o que é capital de risco... Todo negócio tem de dar lucro... Ainda que em proporções inacreditáveis. Diz o professor Everaldo, verdadeiro entendido, que a Vale investe 10 dólares por tonelada de minério no Pará, 30 dólares em Minas e vende por 100 dólares... Paga entre 3 e 4 por cento pela exploração do minério e é isenta do ICMS, o principal imposto do Estado, por conta da tal lei Kandir, aquela que beneficiou os grandes exportadores, ou as grandes empresas do país, e está quebrando Minas Gerais. 

Amigos, Feijão é só mais uma. Já tivemos Herculano, Fundão e muitas outras...Temos 700 barragens e só umas 20 foram efetivamente vistoriadas nos últimos anos... Quem controla é a própria empresa, ou seja, o rato é que garante a integridade do queijo. Outras tragédias virão por aí: em Itabira há uma barragem 219 vezes maior que a de Feijão e, no ano passado, a Vale pediu e a prefeitura de lá autorizou a elevação da dita cuja em 850 metros. Sem falar nos planos da Vale de fazer uma gigantesca na Gandarela, a serra de Rio Acima que garante água a Belo Horizonte. Sem falar que recentemente, nossos pseudo-representantes autorizaram a ação de três mineradores no Rola Moça, terceiro maior parque estadual em área urbana do Brasil.

Até acredito que entre os poderosos da Vale exista gente verdadeiramente preocupada com as pessoas. Mas o sistema exige de quem quer emprego todos os esforços para resultar em lucro. Se um gerente diz “chefe, não vamos construir o refeitório e administração na parte inferior da represa, porque é perigoso” o superior, que tem outras coisas mais importantes que se importar com a vida de seus colaboradores pode até não dizer, mas pensa: “A sede da empresa é no Rio, os chefões tão lá e querem resultados, então, segue o baile”.

Que morra asfixiada a jovem e bela médica do trabalho e centenas de companheiros. Ai, a gente solta uma nota lamentando. Profundamente.

Tenho me esforçado muito para não ser vencido pelo pessimismo, mas, preciso lembrar a tragédia da Gameleira, 48 anos atrás, 65 mortos, centenas de feridos... Quem foi preso?

Tragédia da Barraginha, Contagem, 27 anos atrás, 37 mortos, centenas de feridos, 150 barracos varridos... Quantos presos?

A queda de um viaduto em plena Avenida Pedro I, em plena Copa do Mundo, todos de olho em Belo Horizonte – 2 mortos, 23 feridos – quem foi preso? Que empresa responsável ou irresponsável devolveu o dinheiro?

Tragédia de Mariana... 3 anos,  Quantos presos? Será que um dos 19 mortos continua soterrado na lama?

Tragédia de Unai... exatos 15 anos atrás, num 28 de janeiro como este, quatro servidores da União foram tocaiados e chacinados barbaramente; os dois mandantes irmãos Mânica ricos e poderosos, condenados a mais de 100 anos, continuam livres, leves e soltos...

A vida é um faz de contas... Mas, ainda que a turma do colarinho branco não queira, as contas são sempre acertadas: os acionistas da Vale sabem que toda obra pode ser mais ou menos segura, dependendo do custo; sabem que é sim possível fazer barragem de rejeitos a seco, sem riscos; e sabem que esse orgulho de Minas está deixando de ser uma das maiores empresas de mineração do mundo para se tornar exemplo internacional de omissão, indiferença e incompetência...

Pior que os burocratas da Vale só alguns vizinhos e colegas de trabalho, de escola, bem sucedidos financeiramente, desprovidos de amor ao próximo, que defendem cegamente Bolsonaro, Zema e companhia nas privatizações a qualquer custo, no menosprezo à fiscalização, na prioridade do progresso pelo progresso e que, nestas horas, compartilham vídeos da lama de Brumadinho como se estivessem realmente sofrendo. Os mesmos que, ante o pavor de um deputado federal que fugiu do Brasil com medo do crime organizado, no lugar de solidarizar publicam gracinhas no zap zap zombando da orientação sexual de Jean querem, agora, que a gente acredite que estão mesmos surpresos com as consequências desse jeito nosso de viver no vale tudo... Vale?

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