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Tiradentes, anomia, suicídio...

“Se todos quisermos, poderemos fazer deste país uma grande nação”. Não dá para esquecer a frase e nem seu autor, aquele que deu o...

05/09/2016 às 03:54

“Se todos quisermos, poderemos fazer deste país uma grande nação”. Não dá para esquecer a frase e nem seu autor, aquele que deu o próprio pescoço por um futuro virtuoso para o Brasil. Mais uma semana da pátria e é inevitável lembrá-lo porque há uma carência absurda de líderes que mereçam credibilidade ou, pelo menos, sejam carismáticos, chamem a atenção dos eleitores. No modelo de democracia que adotamos – da representatividade – é muito triste perceber o sentimento de anomia que nos consome. Essa palavrinha revela um estado de falta de objetivos e regras e de perda de identidade, provocado pelas intensas transformações ocorrentes no mundo social moderno. Mas claro que ela pode – e, pelo menos para mim, deve – ser adaptada à relação entre o povo e seus representados nas casas legislativas, nos palácios e nos tribunais. Não nos sentimos representados, embora tenhamos participado de um processo de escolha dos que lá estão.

Na verdade, é como disse um príncipe herdeiro da coroa brasileira em recente entrevista que me concedeu: no modelo de democracia que temos, nem brasileiros nem americanos, por exemplo, escolhem seu presidente, mas, sim, optam entre dois nomes que são colocados pelo sistema. Ora, mal confundindo as coisas, é como a seleção que ganhou o ouro olímpico e aquela, do Dunga, que jogava até recentemente – a primeira, feita de meninos que ainda estão no país, com mais amor, proximidade, vontade de vencer e sentido de grupo, enquanto a outra, que vinha fracassando, contava com um bando de milionários jogando nas mais diversas partes do exterior que se reunia, ia a campo cumprindo uma rotina, mas sem compromisso. Acredite, caro leitor, o futebol e a política, que são as duas coisas de maior visibilidade do país, têm tudo a ver, na desorganização, na corrupção, na falta de unidade... Por isso misturo as duas coisas de propósito.

Mais adiante, volto à origem da palavra anomia.

Agora, falemos das razões de ela estar entre nós. Você votou em quem para deputado federal nas últimas eleições? Talvez nem se lembre. Ou, quem sabe, está decepcionado, como eu... Você já parou para pensar que é o Congresso, com nada menos que 81 senadores e 513 deputados, que, de fato, manda no Brasil? A gente vota sem maior cuidado, põe a mesma turma lá há décadas e eles, na escuridão da noite, nos devolvem Renan Calheiros, Collor, Eduardo Cunha, Delcídio e outros monstros. Não adianta canalizar toda a raiva para o presidente, seja Temer ou Dilma. Ela não sobreviveu por tentar enfrentá-los, melhor, ignorá-los. Ele, raposa velha, sabe que tem de apaziguar os congressistas e conhece bem a moeda de troca: benesses, empregos, verbas para obras nem sempre honestas... Lá na China, para onde foi logo depois da posse, disse que sua meta é “pacificar” o país. Isso dá calafrios, pois pode significar fazer reformas que não mudam nada, apertar o cerco contra os mais pobres e manter privilégios dos poderosos, cujos representantes são os mesmos congressistas, alguns deles figuras praticamente anônimas mas que fazem um estrago permanente no país.

Quando você vem para os Estados, o quadro não é diferente. Dê uma olhada nas estatísticas do Tribunal Regional Eleitoral. Verá que a nossa Assembleia não renova mais que 30% dos parlamentares a cada eleição... A mesma turma, de espertalhões, vive na política de pai para filho, neto, genro...

E no município... Caso de Belo Horizonte. Aposto que a renovação, mês que vem, não vai passar de 20%, 25%. Que tristeza! Pergunte no ponto de seu ônibus ou no consultório de seu médico quem está de fato interessado na eleição de outubro e descubra a total indiferença. A maioria dos postulantes a prefeito é de deputados, os mesmos que prometem agora o que não fizeram com seus mandatos, e as exceções não inspiram confiança.

Voltemos à anomia. O conceito foi estabelecido por Émile Durkheim em suas obras, especialmente “O suicídio”, exatamente para mostrar que algo na sociedade não funciona de forma harmônica. Algo está doente. Ele concluiu que a anomia é uma das causas do suicídio, por conta de ausência de regulação social, devido a contextos de mudança repentina ou instabilidade na sociedade. O sociólogo falava como psicólogo de algo claro, óbvio e que precisa ser ressaltado: a crise econômica, o sobe e desce da economia, a mudança de perspectivas nas profissões, o desemprego, a confusão política, tudo isso contribui para diminuir o gosto do cidadão pela vida. Também interpreto como falta de efetivo sentido de representação, entre quem o cidadão elegeu e o dito cujo, ou seja, o eleitor, depois do voto, não se sente representado.

Por que trouxe o suicídio para a conversa? Porque, recentemente, o Brasil ficou sabendo de duas tragédias – a família dizimada no Rio e o pai que pulou com o filho do prédio em São Paulo –, mas, em verdade, as pessoas não têm ideia da quantidade espantosa de gente que se mata todos os dias na nossa vizinhança. Há uma falsa sensação de que a imprensa é proibida de divulgar; mito. Há décadas, jornalistas decidiram evitar a propagação por acreditar que esta pode incentivar mais casos. Não creio. Ao contrário, acho que deveríamos discutir o suicídio e, assim, descobrir o quanto é rotineiro e vitima jovens cheios de vida.

É um papo ruim para a Semana da Pátria. Mas é com falta de representatividade, suicídio e desilusão que queria acordar a todos. Nós. Precisamos fazer cada um a nossa parte e, quem sabe, um dia, a gente não retribui a Tiradentes um pouco do amor que teve por nós. Até lá, seremos responsáveis, sim, por eleger quem não nos representa e pela epidemia de mortes jovens, especialmente as provocadas pelo desespero.

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