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Sou a favor da Bolsa Crack

Sou a favor da Bolsa Crack

O nome correto não é esse. Na verdade, o que o governo criou foi o “Cartão Aliança pela Vida”, mas, ao chamar de “bolsa crack” uso o adjetivo que já foi dado por ouvintes e leitores, muito irritados com a decisão do Governo de Minas de criar um auxílio para aqueles que estão mergulhados no mundo das drogas, absolutamente sem rumo e esperança.

Geralmente, sou contra vale isso, cartão daquilo, penso que o governo deve dar mesmo é condições de trabalho a todos os cidadãos, até porque é o ir e vir para a labuta diária que mais dá dignidade ao homem. Ocorre que, pela experiência com usuários, pais e especialistas, estou convencido de que essa gente está no fundo do poço e já não consegue sair sem um puxão.

Por  isso, tenho insistido na tese da internação compulsória, isto é, obrigatória, porque não acredito que a maioria dos viciados tenha capacidade de escolher entre se tratar ou continuar no meio da rua. Então, quando o governo decide fazer alguma coisa, ou a gente apresenta solução melhor ou apóia.

Além do mais, existem alguns aspectos que precisam ser considerados. O primeiro deles é que as comunidades terapêuticas têm se revelado muito mais eficientes que os órgãos públicos para cuidar desses necessitados; então, transferir recursos me parece mais produtivo. Ademais, o programa prevê a verificação de 175 itens antes de fechar contrato com uma entidade, repassa apenas 90 reais diretamente para a família e entrega à clínica os outros 810,00 por um período a principio não superior a nove meses, tempo considerado suficiente para o cidadão recomeçar.

Acho que esse é o melhor caminho, torço para dar certo e que a iniciativa - num primeiro momento restrita - a Teófilo Otoni e Juiz de Fora seja estendida, já no ano que vem a todo o Estado.

Para os que vão dizer coisas do tipo “o cara vai para o crack porque quer, e o governo vai se meter por quê?” deixo aqui parte do e-mail que recebi de Regina Ferreira: “...” Aos domingos faço um trabalho com famílias de dependentes químicos, e são muitas histórias de pessoas que perdem tudo, até mesmo a dignidade por causa do vício, principalmente pelo crack. Um dado muito importante que eu gostaria de compartilhar com você é: a maior parte dos usuários atendidos é multifuncional, ou seja, sabe trabalhar em várias coisas e tem um talento enorme. E o mais curioso, tem uma facilidade impressionante de conseguir emprego, isso porque nos seus momentos de sobriedade eles são muito sociáveis e talentosos. O problema é a permanência no emprego. A pessoa consegue emprego com facilidade, trabalha bem, mas, quando bate a fissura o dinheiro se vai numa noite de compulsão pela droga. Agora eu pergunto: Falta emprego para estes viciados? Com certeza não. Colocar todos eles na construção civil (que é um mercado em expansão) vai adiantar? Não. Isto porque o vício é uma doença, não é o trabalho simplesmente, que vai curar. Uma pessoa doente precisa de tratamento. Assim como uma pneumonia não se cura com trabalho, o vício também não. Há um número enorme de famílias que sofrem com os viciados e não tem condições de tratá-los porque as casas de recuperação cobram por volta de R$ 700 a R$ 900 por mês de internação. E uma família que recebe um salário mínimo, como ela paga o tratamento? Ou ela vê seu parente se definhar, ou recorre ao governo, esperando que a rede pública possa intervir antes que a pessoa perca a vida por dívida com o tráfico, ou por overdose. Acredito que o trabalho pode ajudar na recuperação da pessoa. Mas é louvável a ação do governo de criar uma estratégia de ajudar as famílias. É claro que isto deve ser feito de forma criteriosa, o governo não pode sair distribuindo dinheiro a qualquer pessoa que se diz necessitado, pois, sabemos bem das fraudes que ocorrem em tudo o que envolve dinheiro”.