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Somos todos procuradores... De Justiça!

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06/05/2013 às 02:13

Certos dias, ele me cansava. Mas, na maioria de nossos encontros, Porfírio me proporcionava boas gargalhadas. A primeira vez que apareceu na rádio queria falar sobre a injustiça de que afirmava ter sido vítima, 30 e tantos anos antes quando, funcionário de uma grande siderúrgica, almoçava em companhia de amigos e foi chamado pelo apelido de “Lampião”. Era o jeito carinhoso com o qual os colegas o identificavam, mas, como quem dizia, naquele momento, era um chefão, com o qual não tinha intimidade, apelou. O superior hierárquico ficou irado, até porque se fazia acompanhar de visitantes, todos engravatados e poderosos. Antônio Porfírio dos Santos foi demitido ao final do dia e nunca mais foi feliz. Morreu no ano passado, com o sentimento de que seu desligamento deveria ter sido anulado, caso a justiça existisse de fato no país. No primeiro contato, abri o espaço para o desabafo dele. Era a primeira vez que conseguia. O velho Porfírio agiu como quem nunca comeu melado. Disparou falação, acusando tudo e todos e dando nome de desembargadores. Quase cai da cadeira... O interrompi, pedi que evitasse citações pessoais, considerando que as outras pessoas não podiam se defender naquele instante. Nunca mais deixou de vir à rádio. Às vezes, duas, três ou quatro vezes numa só semana. Sugeri que ele levasse seu caso à Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa. Nunca mais deixou de ir lá, toda quarta-feira, pela manhã. Ficou tão inconveniente que, por várias vezes, o então presidente, João Leite, anunciava, ao término da reunião: “Está franqueada a palavra...” Antes que Porfírio chegasse ao microfone, o deputado encerrava a sessão. Numa de suas visitas à casa do povo, o encontrei na porta da Assembléia... Enquanto conversávamos, passou o então ministro do Supremo Tribunal Federal, Carlos Mário Veloso. Corri, pediu uma entrevista rápida e o mineiro ilustre, sempre solícito, parou. Porfírio se apresentou: “Doutor, eu sou procurador de justiça...”  Carlos Mário Veloso imediatamente o saudou, indagando se ele era do Ministério Público de Minas, mas Porfírio completou: “Não, doutor, não sou procurador desses aí de carreira não, eu procuro por justiça”. E, sem perder o fôlego, o velho desempregado começou a narrar seu drama. Desconcertado, o ministro quis evitar a continuidade da prosa e foi saindo, com uma frase bem apropriada para quando a gente não sabe o que dizer: “É, realmente, meu senhor, é difícil...” Ao que Porfírio, pegando no braço da alta autoridade emendou: “Edifício, doutor, é uma casa em cima da outra e a gente chama também de prédio”. O ministro fez-se de desentendido e seu mandou. Esses últimos dias, com uma saudade danada de gente franca como Porfírio, me pergunto por que um desembargador recebe propina para dar habeas-corpus a traficantes perigosos e uma juíza pede 1,5 milhões de reais para conseguir o mesmo documento para preso famoso. Fico tentando entender como essa gente bem paga joga tudo na lama pelo simples prazer de faturar mais, ficar rico mais depressa. Mas, acima de tudo, fico intrigado porque, mesmo quando as denúncias são gravíssimas, partem de profissionais confiáveis como policiais federais, o máximo que acontece a um magistrado ladrão é a aposentadoria. Ou alguém se esquece da “Operação Pazárgada”. E não é diferente no Ministério Público. Ou é possível esquecer a tal história de um procurador-geral acusado de pedir 6 milhões de reais para aliviar a máfia dos caça-níqueis e que contaria com a ajuda de um genro, filho de um desembargador. O pior é que essas investigações terminam todas no nada, nunca acham provas... Mas, também, não punem quem fez as acusações. Mundo nojento... Que nos torna iguais, sem curso de Direito, sem fazer concurso, sem ganhar bem ou ser chamado de autoridade, mas, todos, em especial os mais pobres, procuradores de justiça (ou, Justiça, com o” J” maiúsculo).

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