Ouça a rádio

Compartilhe

'Só sei que nada sei'

Marcos Machado mora em Sabará e, para fazer um trabalho do seu curso de História, pediu-me para falar sobre a “alegoria da caverna” e o que suas luzes e sombras podem nos dizer sobre a realidade de hoje, além da importância da filosofia na resolução de crises.

Primeiro, caro Marcos, é preciso lembrar que há 2.500 anos acreditava-se que a filosofia era uma terapia para libertar as pessoas de uma vida medíocre, servindo até para preparar uma “boa morte”. Um filósofo que fez história foi Sócrates, mas, talvez por acreditar que a história oral era mais importante, ele não deixou livros. Em compensação, seu principal discípulo, Platão, notabilizou-se por escrever diálogos, sempre tendo o mestre como interlocutor.

E, em um dos principais livros, “A República”, Platão nos convida a imaginar um grupo de pessoas vivendo dentro de uma caverna, por muito tempo, sendo que a única coisa que conseguiam ver eram imagens projetadas lá dentro, a partir de luzes provocadas por uma fogueira lá fora. Estas pessoas ficam fascinadas, acreditando que as sombras são a realidade. Um dia, alguém quebra as algemas e sai... Então, depois de sofrer com o impacto dos raios solares sobre os olhos, descobre que o sol é a luz do bem e que a realidade é outra. Sente-se obrigado a voltar e contar aos outros, mas, é recebido com desconfiança, como se fosse um mentiroso.

Então, lembra-nos Platão, as coisas materiais, como a riqueza, são as sombras; o essencial, a sabedoria, o bem devem ser nossa realidade.

Mas, adverte o filósofo, quem quer ver o mundo verdadeiramente real deve estar preparado, pois, afinal, ficar dentro da caverna, sem assumir a vida, é mais fácil; a luz cria incômodos, é difícil sair da ignorância; devemos nos abrir para conhecer um mundo superior, espiritual, divino, e, acima de tudo, devemos devolver o bem... Assim, aquele prisioneiro tinha o dever de voltar e liberar os outros, cada um de nós tem o dever de ajudar, ainda que custe caro... O próprio Sócrates, mestre e homenageado de Platão, foi condenado à morte por tentar mostrar além das sombras.

Então, voltando ao trabalho do Marcos, devo repetir a ele o que disse o escritor português José Saramago, antes de morrer, em 2010: o mundo audiovisual que vivemos é o das sombras, das cavernas.

Pensem no Brasil de hoje. Você tem 30 por cento das pessoas que só enxergam uma causa. E não querem ouvir discordância. Outros 30 por cento, no extremo oposto, pensam totalmente diferente e dispensam qualquer ponderação. Sobram 40 por cento que tentam dialogar, mostrar o diverso, mas, como vivemos dentro de uma perspectiva única, não queremos ouvir.

Essa é a importância da filosofia. Ela nos convida a refletir, rever conceitos, encontrar novos caminhos. Mas, nos tempos das mídias sociais, todo mundo é especialista e quer falar. Com seu pensamento pronto. Cheias de razão.

E Sócrates, 25 séculos atrás, mostrou o caminho da luz:

“Só sei que nada sei, e o fato de saber isso me coloca em vantagem sobre aqueles que acham que sabem alguma coisa”.