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Sexagenário

Estou chegando aos 60. E quero dividir com vocês. Com alegria. Verdadeiramente. Até por que sexagenária é aquela pessoa ou coisa que completa o...

Estou chegando aos 60. E quero dividir com vocês. Com alegria. Verdadeiramente. Até porque, sexagenária é aquela pessoa ou coisa que completa o interregno de 60 anos de existência ou de utilidade. A certidão confirma e sinto-me útil. Com certeza, cheio de equívocos, tanto que a única certeza hoje é a de que muito ainda irei aprender. Não me sinto velho, doente, acabado, mas aceito pacífica e honrosamente a condição de idoso. Afinal, só quem viveu 60 anos sabe o que isso significa de desgaste dos neurônios, dos olhos, dos joelhos, da coluna, da virilidade… Mas há o lado de melhor idade que é pensar duas vezes antes de errar, administrar os obstáculos, considerar a diversidade uma bênção e não um imbondo e, claro, comemorar o fato de que muitos ficaram pelo caminho. Ora, se Riobaldo tem razão – “o que a vida quer da gente é coragem doutor”– emplacar seis décadas merece velas, fogos e graças.

E, embora esteja aberto a um novo olhar sobre limites da velhice, considerando a longevidade cada vez maior dos humanos, passo, imediatamente, a exigir meus direitos. Não vou me constranger com as prioridades na fila, no transporte, no estacionamento… Fiz por merecer, trabalhei desde os 11, paguei impostos, respeitei o direito dos outros, nunca chamei aposentado de pé na cova e não devo nada a ninguém, exceto obrigações e o reconhecimento aos que contribuíram para para que o 26 de outubro de 2016 fosse possível.

Chegar aos 60 implica em aumentar um quilo a cada ano, um novo comprido também; olhar com mais cuidado onde pisar, sobretudo se temos a companhia dos bi-focais; sentar com jeito, deitar com leveza, levantar com cuidado, beber com moderação e rir de máximas como a que diz “não neglicencie um pum, não recuse um banheiro e jamais desperdice uma ereção”. Aos 60, temos maturidade suficiente para escutar (de verdade) quando interessa e fazer cara de paisagem na prosa ruim. Se o cara acha que Pelé não jogou muito, Roberto Carlos não tem valor e o Papa não é diferenciado, a gente simplesmente diz “tá certo, amigo, desculpa, estou atrasado, fui”. Mesma coisa com o empolgado que quer te converter e o vizinho sabichão de mil ideias. Quando se tem 60, aquela colega de trabalho que fez pacto com a infelicidade já não lhe incomoda mais… Graças a ela, você valorize a esposa.

Não faço a menor ideia de até quando estarei neste plano. E – o que é melhor – isso não me incomoda nem um pouco. Se tiver de ficar por mais 30 anos, vou adorar, continuarei sofrendo pelo o Galo e rindo de piada ruim. Se amanhã for o meu dia, sigo feliz, absolutamente convencido de que dei o melhor de mim, tenho muitos acertos a fazer e, depois do umbral, virão dias ainda melhores que os de hoje… Que já são ótimos.

Se você leu até aqui é porque tem muita paciência ou quer ficar meu amigo… Então, vou lhe avisar: sou da civilização do oi, não tenho lealdade e persistência como Lúcio Braga; sou espalhafatoso, não tenho discrição como Célio Marcos; vejo três fatos ao mesmo tempo, posso até não ver, mas estou ligado como Geraldo Magela, o ceguinho; e um de meus defeitos é não ter o hábito da leitura, como Luis Borges. A propósito, agora vou lhe dar mais pistas, com três textos que Luis me mandou… O primeiro é o teste de DNA – Data de Nascimento Antiga. Vê se você é do meu tempo, respondendo com sinceridade:

01. Você já tomou Q-Suco?

02. Você bebia Grapette?

03. Sua primeira bebida alcoólica foi Cuba Libre?

04. Já comeu goiabada cascão?

05. Você tomou leite que vinha em garrafa de vidro com tampinha de alumínio?

06. Já tomou Cibalena?

07. Tomou Biotônico Fontoura?

08. Você cuidou de suas espinhas adolescentes com pomada Minâncora?

09. Sua mãe usava Violeta Genciana para cuidar de seus machucados?

10. Seu pai usava aparelho de Gillete com lâminas removíveis?

11. Sua mãe tinha secador de cabelos com touca?

12. Sua mãe usava Leite de Colônia?

13. Você jogava bilboquê?

14. Usava tampinha de guaraná para fazer distintivo de polícia?

15. Soltava bombinha de quinhentos em época de festa junina?

16. Você andou de carrinho de rolemã?

17. Brincou de queimada?

18. Você lembra quando o Ronnie Von jogava a Franjinha de lado, Meu Bem?

19. Você assistia Perdidos no Espaço?

20. Você sabia de cor a música de Bat Masterson?

21. Sabe quem foi Phantomas?

22. Quem foi Ted Boy Marino?

23. Você assistia ao Repórter Esso?

24. Assistia ao Toppo Giggio?

25. Assistia Vila Sésamo?

26. Você sabe quem foi Johnny Weissmüller?

27. Assistiu ao Vigilante Rodoviário?

28. Sabe quem foi Odorico Paraguassu?

29. Você se lembra o que era compacto

simples e o que era um compacto duplo?

30. Você já teve um Bamba?

31. Se lembra do Vulcabrás 752?

32. Você usava japona?

33. Quando estudava, os graus eram: primário, admissão, ginásio e científico?

34. Você chamava revista em quadrinhos de gibi?

35. Sua mãe tinha caderneta no armazém?

36. Usou bomba de flit?

37. Já andou de Simca Chambord?

38. Conheceu o Aero Willys?

39. E o Kharman Guia?

40. Já andou de Vemaguete?

41. Já usou gasolina azul no seu carro?

42. Sua mãe usava cera Parquetina?

43. Você se lembra do sabão em pó Rinso?

44. Da televisão com seletor de canais rotativo?

45. Sua mãe usava bombinha de laquê de plástico?

46. Ela chegou a usar meia com risca atrás?

47. E anágua?

Agora, se você quer saber para quem darei mais atenção depois dos 60, vou lhe contar um segredo: há dois anos pedi aos chefes na Itatiaia para sair da cobertura diária… Me afastei da Prefeitura, do Palácio, da Assembleia… Quero distância dos poderosos, o máximo que puder… E conviver com gente simples, fundamental no dia a dia, como o Reginaldo, motorista da Itatiaia e meu companheirão de duas décadas. Aos simples como ele, gostaria de lembrar um texto maravilhoso. Veja só:

Charles Plumb era piloto de caça dos EUA e serviu na guerra do Vietnã. Depois de muitas missões de combate, seu avião foi derrubado por um míssil.

Plumb saltou de pára-quedas, foi capturado e passou seis anos numa prisão norte-vietnamita.

Ao retornar aos Estados Unidos, passou a dar palestras relatando sua odisséia e o que aprendera na prisão.

Certo dia, num restaurante, foi saudado por um homem: “Olá, você é Charles Plumb, era piloto no Vietnã e foi derrubado, não é mesmo?” “Sim, como sabe?”, perguntou Plumb. “Era eu quem dobrava o seu pára-quedas. Parece que funcionou bem, não é verdade?” Plumb quase se afogou de surpresa e com muita gratidão respondeu: “Claro que funcionou, caso contrário eu não estaria aqui hoje.”

Ao ficar sozinho naquela noite, Plumb não conseguia dormir, pensando e perguntando-se: “Quantas vezes vi esse homem no porta-aviões e nunca lhe disse Bom Dia? Eu era um piloto arrogante e ele um simples marinheiro.” Pensou também nas horas que o marinheiro passou humildemente no barco enrolando os fios de seda de vários pára-quedas, tendo em suas mãos a vida de alguém que não conhecia.

Agora, Plumb inicia suas palestras perguntando à sua platéia:

Quem dobrou teu pára-quedas hoje?

Todos temos alguém cujo trabalho é importante para que possamos seguir adiante. Precisamos de muitos pára-quedas durante o dia: um físico, um emocional, um mental e até um espiritual.

Às vezes, nos desafios que a vida nos apresenta diariamente, perdemos de vista o que é verdadeiramente importante e as pessoas que nos salvam no momento oportuno sem que lhes tenhamos pedido.

Deixamos de saudar, de agradecer, de felicitar alguém, ou ainda simplesmente de dizer algo amável. Hoje, esta semana, este ano, cada dia, procura dar-te conta de quem prepara teu pára-quedas, e Agradeça-lhe.

Ainda que não tenhas nada de importante a dizer, envia esta mensagem a quem fez isto alguma vez. E manda-a também aos que não o fizeram. As pessoas ao teu redor notarão esse gesto, e te retribuirão preparando teu pára-quedas com esse mesmo afeto.

Todos precisamos uns dos outros, por isso, mostra-lhes tua gratidão. Às vezes as coisas mais importantes da vida dependem apenas de ações simples. Só um telefonema, um sorriso, um agradecimento, um “Gosto de Você”, um parabéns…ou Simplesmente você é 10! Somos todos irmãos....voar é preciso....amizade é necessária...o amor obrigatório.... Quem dobrou seu para-quedas hoje?

Por fim, como todo mundo tem de ter desconfiômetro, mas especialmente os que falam muito como eu, faço minha a oração que circula nas redes sociais:

Ó Senhor, tu sabes melhor do que eu que estou envelhecendo a cada dia.

Sendo assim, Senhor, livra-me da tolice de achar que devo dizer algo, em toda e qualquer ocasião.

Livra-me, também, Senhor, deste desejo enorme que tenho de querer pôr em ordem a vida dos outros.

Ensina-me a pensar nos outros e ajudá-los, sem jamais me impor sobre eles, mesmo considerando, com modéstia, a sabedoria que acumulei e que penso ser uma lástima não passar adiante.

(Esta é ótima, não?)

Tu sabes, Senhor, que desejo preservar alguns amigos e uma boa relação com os filhos, e que só se preserva os amigos e os filhos...... quando não há intromissão na vida deles...

Livra-me, também, Senhor, da tolice de querer contar tudo com detalhes e minúcias e dá-me asas no assunto para voar diretamente ao ponto que interessa.

Não me permita falar mal de alguém.

Ensina-me a fazer silêncio sobre minhas dores e doenças..

Elas estão aumentando e, com isso, a vontade de descrevê-las vai crescendo a cada dia que passa.

Não ouso pedir o dom de ouvir com alegria a descrição das doenças alheias; seria pedir demais.

Mas, ensina-me, Senhor, a suportar ouvi-las com alguma paciência.

Ensina-me a maravilhosa sabedoria de saber que posso estar errado em algumas ocasiões.

Já descobri que pessoas que acertam sempre são maçantes e desagradáveis.

Mas, sobretudo, Senhor, nesta prece de envelhecimento, peço:

Mantenha-me o mais amável possível.

Livrai-me de ser santo.

É difícil conviver com santos!

Mas um velho ou uma velha rabugentos, Senhor, é obra prima do capeta!!!!!

Me poupe!!!

Amém!