Ouça a rádio

Compartilhe

Senhores ministros,

Sou um cumpridor das leis. Também respeito autoridade. Aliás, quando menino, toda vez que via um soldado pedia a bênção.

Sou um cumpridor das leis. Também respeito autoridade. Aliás, quando menino, toda vez que via um soldado pedia a bênção. Ordens de minha mãe, que durante 83 anos fez parte dos 99 por cento dos brasileiros que obedecem, trabalham e pagam os impostos, para delírio da elite de um por cento. Nunca discutirei o notório saber jurídico de alguém que chega ao Supremo Tribunal Federal, por mil razões, mas, especialmente, porque entrevistei a professora Carmem Lúcia por centenas de vezes e sempre soube que ela estava acima da média. Quem sou eu para avaliar sentenças! Permitam-me apenas expressar meu desassossego em relação ao futuro.

Preciso lembrar Cesare Beccaria que, aos 26 anos, no século XVIII, preso, vítima de uma injustiça, escreveu em “Dos delitos e das penas” que os juízes não devem ser pautados pela opinião pública, mas, também, que não receberam as leis de nossos antepassados como tradição de família, nem como testamento, que só deixasse aos pôsteres a missão de obedecer, mas recebem-nas da sociedade como legítimo depositário da vontade de todos. E mais: “...Esse liame de obrigações mútuas que desce do trono até a cabana e que liga igualmente o maior e o menor dos membros da sociedade, tem como fim único o interesse público, que consiste na observação das convenções úteis à maioria; violada uma dessas convenções,abre-se a porta à desordem”.

Então, senhores ministros, façamos um trato: eu prometo obedecer a decisão da Corte e os senhores me indicam como continuar na cruzada por um Brasil melhor. Não para nós, mas, para nossos filhos e netos... A propósito, os senhores costumam conversar com filhos e netos antes da sentença?  Eles são a voz rouca da rua, que não deve balizar um voto, mas, acredito, nos mostram os perigos. Esta não pode ser a pátria dos espertos, os mais inteligentes precisam trabalhar do lado do bem e temos de sepultar essa horrível impressão de que só vão para a cadeia os pobres, os pretos e as prostitutas – ou, como diria o amigo Luís Borges, cadeia para os mortos. Tenho medo do que pode acontecer amanhã, por causa dos “embargos infrigentes” de hoje. Por fim, permitam-me lembrar Rui Barbosa: "De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.".