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Se tivesse de escolher um escritor brasileiro, provavelmente seria o antropólogo Roberto DaMatta.

24/03/2014 às 11:35

Se tivesse de escolher um escritor brasileiro, provavelmente seria o antropólogo Roberto DaMatta. E por apenas um de seus textos – o que tem o título acima. Em minha opinião, não há nenhuma outra frase que resuma tão bem a cultura brasileira quando se discute a falsa cordialidade e a diferença entre a nossa pose e o que realmente praticamos. Já o ouvi várias vezes descendo a detalhes de seu pensamento, assegurando tratar-se de um “rito de autoridade” e algo tão brasileiro como as confraternizações sociais. Uma verdade, que fica debaixo do tapete, para esconder preconceitos, mas, quando necessário, revela as hierarquias mascaradas pelo carnaval, pelo futebol, pela praia. É a negação da simpatia... Ou seja, na hora da verdade, um dos interlocutores trata de colocar o outro no seu “devido lugar”. Na hipótese do autor, o conflito é evitado por que os lugares sociais estão claros entre nós; há uma profunda hierarquia na qual cada um sabe seu lugar... É clara, mas implícita, daí o constrangimento da frase. Melhor explicando ainda: a gente vive num ambiente de faz de contas, onde tudo é cordialidade, desde que cada um fique no seu quadrado. Se quiser reagir, reclamar, contestar, é logo avisado de que deve “baixar a bola”.

Passei o fim de semana pensando no texto, que integra a obra “Carnavais, malandros e heróis” porque algo registrado em Belo Horizonte na manhã de quinta-feira não teve a devida repercussão na mídia, embora  da maior gravidade. Por volta de 8h30m da manhã, em meio a intenso movimento da Rua Rio Grande do Sul, perto da Praça Raul Soares, um advogado, de 37 anos, bateu o carro em um táxi. A taxista desceu para discutir o acidente e levou um tapa no rosto. Apavorada, entrou no próprio veículo, trancou as portas e chamou a polícia. A equipe encarregada da ocorrência teve muita dificuldade para conduzir o “doutor” ao Detran e, além de muitas agressões verbais, ele deu um chute nas pernas de um tenente da PM, diante das câmaras da TV Record. Não satisfeito, jogou beijos para o cinegrafista e gritou para quem quisesse ouvir que não iria acontecer nada, que era um “promotor” e tudo se resolveria.

Um vexame no qual a gente só acredita porque vê toda hora: são pessoas que cresceram protegidas pelos pais, tiveram tudo à mão, não conheceram insucessos e desejos proibidos e, de repente, adultas, com um diploma, um carro e cartão de visitas, se sentem vazias, como de fato são. Aí, bebem a noite inteira e, pela manhã, vão para as ruas, com suas máquinas mortíferas, equipadas com “airbag” porque se tiver de morrer alguém que seja o outro. Quando vejo exibições de má educação e arrogância assim fico imaginando os europeus chegando, estuprando as índias, matando seus maridos, trazendo os negros como galinhas nas gaiolas dos navios, escravizando-os, abusando de suas filhas... Só pode ser fruto de nossa história, só pode ser resultado de um começo errado de civilização!

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