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'Rolezinho'

Ora, se há tanta intensidade nas relações sociais, é natural que, em dado momento, as pessoas tivessem o real interesse de um contato pessoal. Aconteceu nas manifestações do ano passado.

20/01/2014 às 08:50

Se a moda é falar sobre o novo jeito dos jovens brasileiros de passearem no shopping, quero palpitar.  Mas, não o farei com conceitos por mim formulados ou reflexões que ouvi nos últimos dias – até porque são tantas, de tão variadas origens e com tamanha diversidade de sentimentos que não é possível organizar. Então, sugiro que, para entender, temos de ler mais. Qualquer um, com mais de seis anos, que entrar na internet e procurar estudiosos do meio urbano vai encontrar literatura que, aliada ao mínimo de compreensão sobre o papel das mídias sociais, explica tudo. Ora, se há tanta intensidade nas relações sociais, é natural que, em dado momento, as pessoas tivessem o real interesse de um contato pessoal. Aconteceu nas manifestações do ano passado. Agora, os jovens estão reeditando à sua maneira. Se comportados ou não, vândalos, ameaçadores, mal educados, bons moços, sem lazer, enfim, qualquer que seja o rótulo, são apenas e tão somente o que são. São os jovens que produzimos.

 Para entender os jovens que produzimos é preciso conhecer a realidade das ruas, nos mais diversos pontos de uma cidade. E ler. Um exemplo? Mike Davis escreveu, na década de 80 do século passado, “Cidade de Quartzo: escavando futuro em Los Ângeles”, onde discorre sobre as entremeadas e complexas características da cidade norte-americana, como a especulação imobiliária, a paranóia dos condomínios fechados, a corrupção das autoridades, a violência urbana e o transporte individual em automóveis nas estradas congestionadas. É um retrato do contraste entre políticas públicas mercadológicas e liberais, e a marginalização histórica de estratos sociais e migrantes – quadro que reverberou em eclosões violentas na década de 1990, como previu Mike Davis. A corrupção e a burocracia emergem como a expressão do fracasso da política enquanto possibilidade de acordo.

Em outro livro, “Planeta Favela”, da década de 1990, o mesmo autor traça um retrato da nova geografia humana das metrópoles, onde algumas “ilhas de riqueza” florescem em torres de escritório ou condomínios fortificados que imitam os bairros do subúrbio norte-americano, separados da crescente população favelada por muros e exércitos privados, mas conectados entre si por auto-estradas, aeroportos, redes de comunicação e pelo consumo das marcas globais. Como coloca o autor, citando, entre outros, Alphaville, enclaves constituídos como “parques temáticos” deslocados da sua realidade social, mas integrados na globalização, onde se deixa de ser cidadão do seu próprio país para ser um “patriota da riqueza, nacionalista de um afluente e dourado lugar-nenhum”, como os classifica o urbanista Jeremy Seabrook, citado no livro.

Resumindo a prosa: os ricos estão vivendo em fortalezas, parecidas com as cidades medievais, ou nos shoppings, com a ilusão da segurança uterina, e, lá fora, há uma multidão de excedentes que quer experimentar as diferenças. É como água represada. Um dia estoura, derruba, inunda e até mata. O “rolezinho” é só o começo.

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