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Reféns do medo

Ontem foi um dia especialmente triste prá mim. Já calejado com tanta notícia ruim, de vez em quando me sinto deprimido com fatos que doem na alma...

Ontem foi um dia especialmente triste prá mim. Já calejado com tanta notícia ruim, de vez em quando me sinto deprimido com fatos que doem na alma. Para começar o dia, tive de anunciar a liberdade de Pedro Meyer, monstro que estuprou pelo menos 16 mulheres, ficou preso menos de um ano e já está na rua, por conta do tal de excesso de prazo. Logo eu que na véspera havia entrevistado o juiz Guilherme Sadi, da terceira vara criminal que, na última sexta-feira, mandou soltar dois acusados de receptação por não aguentar mais tanta ausência de réus na sua sala de audiência, ora por falta de escolta, ora por falta de veiculo para levar o preso ao fórum. Ontem, tive de engolir essa do estuprador. Depois, já tentando melhorar o dia, fui até o Aglomerado da Serra para a audiência pública realizada pela Câmara Municipal. A intenção do professor Wendel foi a melhor possível: abrir espaço para que populares pudessem falar de seus sonhos, sua ansiedade, as inquietações, os medos, as reivindicações. Quando começou a sessão – além de alguns alunos que foram buscados em escolas públicas – não havia mais que trinta pessoas na Praça do Cardoso. Que tristeza! Não dá para dizer que houve pouca divulgação. Então, por que será que as pessoas não foram? Observei com atenção a cena, incluindo os prédios e barracos no entorno e já estava perto da triste conclusão quando o líder comunitário Antônio João disse com todas as letras: “Isto aqui hoje tem um preço que é o medo”. Ele é um dos poucos corajosos que ainda ousam ir a esse tipo de manifestação. Não vi lá minha amiga Irene Bittencourt, nem dona Dalila nem vários outros que se destacaram pela defesa da comunidade. A verdade é que cerca de 50 mil pessoas de uma das regiões mais importantes da cidade estão com medo. O problema é o tráfico. Se a gente for perguntar a qualquer autoridade, haverá negativa e até veemência ao rechaçar, mas, olhando no olho das pessoas, a gente percebe que não há disposição de falar por conta das consequências. Eu que já vivi dias tão esperançosos ali, quando do início das obras do “Vila Viva” que prometia uma revolução física e cultural, fiquei numa tristeza!!!