Eduardo Costa

Coluna do Eduardo Costa

Veja todas as colunas

'Olhar fraterno'

Que tal encarar situações (de mau comportamento) com um outro olhar? 

20/08/2018 às 03:29

Muitos empreendimentos privados argumentam que seus espaços não foram projetados para os pequenos. 

"Temos muitos morros aqui e sacadas que são perigosas para crianças", diz à reportagem a gerência de um resort exclusivo para adultos em Santa Catarina. "E nossa proposta é de proporcionar algo mais romântico e reservado, para casais em lua de mel ou para o Dia dos Namorados. Sempre informamos antes, então isso nunca atrapalhou." 

A advogada Aline Prado é autora de um comentário com mais de 300 curtidas no post da BBC Brasil sobre o tema. "Pessoas que não têm filhos também precisam ter a liberdade de escolher frequentar um ambiente sem crianças", opina, agregando que "é comum vermos crianças desconfortáveis em alguns ambientes. Não é obrigação dela se comportar como adulto, mas ela não deveria ser exposta a isso por adultos". 

Mas defensores dos direitos infantis veem essas restrições como evidências de uma sociedade mais intolerante e egoísta. 

"Se não conseguimos conviver com as crianças e entender suas necessidades, que sociedade queremos ter no futuro? Uma que confine as crianças apenas a locais específicos gerará adultos que não sabem se relacionar", opina Isabella Henriques, do Alana. 

"A voz infantil incomoda por não ter os filtros sociais. (Mas) é o nosso valor do presente. As crianças têm direito a voz e a se expressar e a brincar de forma distinta do adulto." 

Para a autora Elisama Santos, consultora em comunicação não violenta e educadora parental, faz parte da vida em sociedade aprender a lidar com o choro infantil - assim como outros inconvenientes das relações pessoais. 

"Adultos têm que saber que o mundo não é só deles. O choro da criança incomoda, assim como o adulto bêbado também incomoda e ele não é (previamente proibido) nos lugares", opina. 

"A ideia de que a criança é indesejada é violenta com ela e com sua família, numa época em que a maternidade das grandes cidades é exercida em grande solidão e muitas mães têm uma rede de apoio pequena - não têm com quem deixar o filho quando precisam ir ao médico, se alimentar, se divertir. Em que momento esquecemos que as crianças é que vão perpetuar o nosso mundo?" 

A farmacêutica paulista Talita (nome fictício) sentiu isso na pele. Quando seu primeiro filho tinha 3 meses de vida, ela e o marido arriscaram uma ida a uma pizzaria em Santos (SP). O bebê chorava com cólica e com o calor, até que os donos do estabelecimento sugeriram que a família fosse comer a pizza em casa. 

"Mais do que chateada, fiquei traumatizada mesmo", diz Talita. "Foi uma de nossas primeiras e últimas saídas com o bebê nos primeiros meses, com medo das reações das pessoas (ao choro), porque criança é assim, imprevisível." 

Por situações como essa, Santos e Henriques defendem um "olhar fraterno" perante pais de crianças que estejam chorando ou falando alto em público. 

"Muitos de nós vivemos em cidades não amigáveis para crianças, com poucos parques ou espaços adequados. Aí elas entram no restaurante e saem correndo e 'a culpa é da mãe que não dá limites', quando a questão é muito mais complexa", opina Henriques. 

"Temos também pais cansados, com filhos que precisam comer. Que tal encarar situações (de mau comportamento) com um outro olhar, oferecendo-se para brincar com a criança enquanto o pai come? No fim das contas, vale o ditado de que é preciso uma aldeia para criar uma criança - é uma responsabilidade coletiva. E isso não significa deslegitimar quem não quer ter filhos, uma escolha que também precisa ser respeitada."

Escreva seu comentário

Preencha seus dados

ou

    #ItatiaiaNasRedes

    RadioItatiaia

    Antes da pandemia, cerca de 3.500 profissionais atuavam na área; agora, não é possível precisar o número #itatiaia

    Acessar Link

    RadioItatiaia

    Mais de 30 militares foram acionados para o combate às chamas, que durou cerca de seis horas #itatiaia

    Acessar Link