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24/04/2017 às 11:38

Em 2017 comemoramos os 80 anos do escritor gaúcho Moacyr Scliar. Ele tem um conto extraordinário intitulado "Os leões". Inspirada no texto, uma professora de Literatura da UFMG escreveu "As capivaras". E decidiu compartilhar conosco. Homenagem ao gaúcho, presente para os mineiros.

As capivaras

Lyslei Nascimento
Para Moacyr Scliar

No passado não, mas hoje, as capivaras são um perigo. Milhares, milhões delas, exímias e contumazes realizadoras de obstinado acasalamento à luz do dia, elas habitam, sem nenhum decoro, as margens da Lagoa da Pampulha. Elas, não sem charme, usam o assobio para seduzir seus parceiros, fazendo estremecer as mansões e seus habitantes, afinal, é sexo e é explícito e elas nadam, desavergonhadas e nuas por ali. Há receio de que queiram, além das margens, invadir os clubes, as clínicas de estética, as igrejas. As autoridades civis e militares, e também quem não tem autoridade nenhuma, lançam no rádio, na televisão, nas redes sociais, sérias advertências a esse respeito. Especialistas são ouvidos. Botânicos, biólogos, construtores de terrários. Tema de entrevistas, a incontrolável reprodução das capivaras é assunto da conversa de redação, das manchetes dos três jornais ainda impressos em Belo Horizonte, dos telejornais em horário dito nobre nas TVs.

Foi decidido que irão exterminar o maior roedor do mundo! Afinal, elas chegam a medir até 1,30 m de comprimento e 0,50 a 0,60 m de altura e, segundo fontes bastante confiáveis, elas podem pesar até 100 kg. De pelo castanho-escuro, suas patas possuem uma espécie de membrana para nadar. Sabiam? Vivendo normalmente em grupos familiares de duas a trinta espécimes, elas se deixam dominar por um casal, rei e rainha do pedaço, da margem. Imbuídos do desejo de matar, preparam-se, os habitantes da cidade, para o morticínio.

A grande massa das capivaras estará concentrada em frente à Casa do Baile e será destruída com uma única bomba de alta potência, lançada por um avião especialmente projetado para o bombardeiro em dia de sol à pino. Quando o cogumelo se dissipar, contaremos as mortes por intermédio dos vídeos realizados pelos caminhantes com seus celulares. Esses vídeo-amadores, a maioria aposentados, foram convencidos a fazer caminhadas na Lagoa porque, afiançam, aumentará sua expectativa de vida. Também é certo que haverá imagens oficiais tomadas pela imprensa caseira e internacional. O núcleo da comunidade de roedores será esfacelado, mas as capivaras protegerão o casal real. Alguns especulam que mesmo com a morte da fêmea, o viúvo assobiará no funeral, o canto da capivara, mesmo que, pela lei implacável da natureza, outra consorte, mais jovem, mais, digamos, fogosa, lhe será designada. Não consta, nos anais das capivaras, que o casal seja monogâmico. Há rumores de que, antes do morticínio, o viúvo, coitado, já havia instalado, paralelo, o poder de uma capivara amásia ou concubina. Há registros de que a amada morta tenha substituído uma outra capivara, outras capivaras. A fila anda para os roedores.

Além do corpo despedaçado da rainha, rodearão o macho alfa, cerca de treze quilômetros de carne moída, ossos em pedaços e pele ensanguentada. Em frente, do lado de fora, e dentro das mansões, capivaras agonizarão.

A operação será classificada como satisfatória pelas autoridades encarregadas. Porém, como sempre acontece nesse tipo de empreendimento, haverá perigos residuais, imprevistos, que constituirão fonte de preocupação. Um deles decorrerá do grande número de capivaras radioativas que escaparão da explosão e que vagarão, sem rumo e sem senso de direção ou de comunidade, invadindo supermercados e praças no segundo e no terceiro entorno da Lagoa.

É bem verdade que quase metade delas serão mortas por voluntários da pátria ou mercenários, gente de boa consciência que, secretamente, acalenta, ainda, desejo de matar nas semanas que seguirão ao ataque. Os CB, como esses indivíduos são carinhosamente chamados, contribuirão para as baixas entre as capivaras, o que deve encorajar os peritos, exterminadores do futuro, mais otimistas.

Será necessário recorrer a métodos mais sofisticados para neutralizá-las. Para tal, já se preparou um laboratório para criação e treinamento de carrapatos. Espécies serão planejadas e designadas de “carrapato-estrela” ou “carrapato-troia”. Como se verá, as capivaras se tornarão as hospedeiras preferidas desse artrópode aracnídeo, acarino. As autoridades contarão com mais de 800 espécies desses ectoparasitas que, aderidos à pele das capivaras para sugar-lhes o sangue. Pensarão, os inocentes donos de laboratório, produtos farmacêuticos e drogarias que o experimento lhes renderá muito lucro.

Será, neste relato, muito cansativo entrar em detalhes desse trabalho, aliás, diga-se de passagem, que será muito bem elaborado pela liderança, mas que sofrerá boicote das universidades, da mídia e dos ecoterroristas que defendem, com milimétricas e incompreensíveis explicações, que capivaras, carrapatos e cães danados deverão ser preservados da extinção. Como será de se esperar, o laboratório encarregado dessa nova tentativa de extermínio perderá o controle sobre os carrapatos que se tornarão uma praga automatizada e não obedecerão aos nanocomandos e se hospedarão nas capivaras que vagam, não mais só pelas margens. Desorientadas e controladas por milhares de carrapatos-troia que as cavalgam. As capivaras invadirão câmaras de deputados, senados federais, estádios de futebol, presídios e casas de swing.

A terceira solução para o caso precisará ser pensada, arquitetada e levada a cabo pelas autoridades. Poderosos venenos? Mensagens sonoras que virão, sub-repticiamente, em músicas ouvidas em rádios AM e FM, em super e hipermercados, em lojas destinadas às classes A, B, C, D ou a todo alfabeto social, em escolas técnicas, religiosas ou supletivas da região? Aparelhos ultrassofisticados deverão ser inventados nessa guerra? As capivaras e os seus carrapatos, unidos, serão em maior número e mais inteligentes do que os humanos, que estarão divididos entre margem (ou márgenes) e o centro da periferia? O que dizer da cidade universitária? Fará boicote? Preferirá estar asséptica e isenta? E da cidade administrativa? O que esperar? Administração? A comunidade bípede, pensante, se esfacelará diante de capivaras e carrapatos ou outra raça de perturbadores da paz surgirá? Capivaras-centauros, capivaras-canibais ou capivaras-anãs habitarão, agora, os televisores?

O sol amanhecerá na Lagoa. Algumas pequenas senhoras, a maioria com sessenta anos ou mais, de cabelos brancos, cinzas, azuis ou rosas-bebê, que fazem suas caminhadas orientadas por gentis médicos de postos de saúde, sairão de casa com suas facas bem amoladas, facões ergonômicos, pequenas e eficazes serras, canivetes adaptados, machados cortantes. Algumas, distraídas, trarão facas elétricas. Não importa. Estas, depois de limparem bem todas as carnes, distribuindo-as por corte, assarão em concorrido churrasco improvisado, fausto banquete de capivaras, às margens da Pampulha.

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