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Por que nada acontece?

Não se fala de como ficou a análise do material comprometido, nem da responsabilização dos que agiram com desídia e muito menos sobre dotar nossa polícia técnico-científica de condições decentes para trabalhar.

Como é da nossa cultura, depois do escândalo com o freezer desligado e a perda de amostras importantíssimas para a solução de centenas de casos, entre os quais homicídios e estupros, o assunto morreu. Não se fala de como ficou a análise do material comprometido, nem da responsabilização dos que agiram com desídia e muito menos sobre dotar nossa polícia técnico-científica de condições decentes para trabalhar.

O que mais espanta é a constatação de que não faltaram avisos. Em maio de 2008, após minuciosa análise de verificação das condições de trabalho e perigo à incolumidade pública, os engenheiros Gerson Câmpera e Anamari Val assinaram um laudo que não deixava dúvidas:
“Em função das condições de trabalho inadequadas e geradas pela elevada exposição dos trabalhadores aos agentes de insalubridade e de periculosidade, dos níveis de armazenamento de materiais tóxicos em locais totalmente inadequados, e da utilização de materiais inflamáveis em um local improvisado (casa de gás), contrariando-se as regulamentações vigentes, os peritos são de parecer que se torna inevitável a transferência definitiva ou a paralisação imediata dos trabalhos periciais na Divisão de Laboratório”.

Sobre as demais instalações, tiraram conclusões semelhantes. E relacionaram doenças graves com servidores que incluíam interrupções de gravidez e alergias agravadas. Considerando que o prédio foi construído muitas décadas antes, para abrigar uma fábrica de cigarros, e não sofreu as devidas adaptações para a nova utilização, na virada do século, quase sete anos atrás os peritos pediam urgência na execução de um sistema de tratamento dos resíduos químicos e biológicos, avaliação e confecção de um sistema de segregação dos resíduos sólidos, aquisição de sistemas de armazenamento de produtos tóxicos e insalubres e, ainda, na definição de um local adequado para o armazenamento e o manuseio de materiais inflamáveis.

Resumindo: todos sabiam – e continuam sabendo – que a parte mais científica, inteligente, da nossa polícia não poderia ficar entregue à própria sorte. Que o tal freezer, programado para 80 graus negativos e que já tivera fios derretidos em setembro, precisava de monitoramento 24 horas... Na impossibilidade de um funcionário acompanhando tudo, o tempo todo, é claro que deveria ter um alarme ou aparelhos apropriados para substituir a energia em urgências. Fatos assim não me deixam esquecer a história mais triste da nossa polícia: a Homicídios procurava um matador em série, a Especializada em Pessoas Desaparecidas procurava por Natália e o corpo da estudante de Direito foi sepultada em cova rasa, depois de três meses no Instituto Médico Legal. É triste, mas é verdade e é preciso dizer... Vai ver se as prioridades da investigação estão nos projetos que aprovam “a toque de caixa” na Assembleia, neste momento, no clima de fim de ano. E de governo.