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Política não combina com a moral

Ao tomar conhecimento das reviravoltas na corrida eleitoral em Belo Horizonte, tive de voltar a um livro da época do descobrimento do Brasil e é...

07/08/2016 às 02:41

Ao tomar conhecimento das reviravoltas na corrida eleitoral em Belo Horizonte, tive de voltar a um livro da época do descobrimento do Brasil e é, pelo menos na minha visão, indispensável para quem quer entender a política: ‘O Príncipe’. Afinal, a sua principal lição é a de que o poder político não combina com a moral. Hoje, atribui-se a seu autor, Nicolau Maquiavel, a frase “os fins justificam os meios” quando, na verdade, ele não teria dito isso. Diz-se de “maquiavélico” o que é mal, planejado para prejudicar, quando, até onde consigo visualizar, não era essa a intenção que o poeta queria nos transmitir. Ao contrário, ele estava na era do Renascimento e procurava abrir nossos olhos para uma verdade cristalina: a política não é a arte do bem comum, como acreditava Aristóteles ou “a arte de governar os homens e administrar as coisas, visando o bem comum, de acordo com as normas da reta razão”, como disse Tomás de Aquino.

Os homens são como são e não como deviam ser, ensinou Maquiavel para, a partir daí, escancarar as verdades que movem a sede do poder.

A partir do século XVI a igreja católica já não reinava absoluta com as verdades que lhe interessavam. Maquiavel ensinou que o governante tem de ser prático, calculista, fazer o bem devagar e o mal de uma só pancada; se esforçar para ser amado, mas, se impossível, que seja temido... Odiado não, porque, nesse caso, os governados já não têm nada a perder e partem para o confronto. Hoje, a gente sabe que a sorte de muitos políticos tupiniquins é essa característica pacata dos brasileiros - não vivemos momentos sangrentos que forjaram grandes nações.

Outra lição maquiavélica: todo político tem de saber definir a hora de agir como homem e como animal, neste caso forte como leão ou esperto como raposa. Esperto para, por exemplo, fazer uma aliança hoje e, se ela não mais convier amanhã, romper sem constrangimentos e seguir adiante. Cabe lembrar que ‘O Príncipe’ não sugeria a prática rotineira da esperteza: naquele tempo, as questões em jogo eram mais sérias, como segurança e manutenção do território. Ainda assim, advertiu ele, só se pode ser imoral quando não há alternativa.

Impressionante como Maquiavel era um visionário. Seu principal livro foi publicado depois de sua morte e, hoje, 484 anos depois, explica a sucessão em Belo Horizonte como nenhum cientista político seria capaz: temos um príncipe, que mora no Rio, decide em Brasília e manda em Minas. E um monte de vassalos que, por amor ou temor, obedecem. Claro que, como em toda regra, há raríssimas exceções. Uma delas, Alexandre Kalil, que parece o único com coragem para dizer a verdade: “Eles vão passando rasteira um no outro para, depois, juntos, passarem a rasteira na cidade”.

E a gente ainda pergunta por que não tem metrô, anel, saúde, cidade grande...

Dá vontade de ouvir Zé Ramalho:

“Êh, ô, ô, vida de gado

Povo marcado

Êh, povo feliz!”

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