Ouça a rádio

Compartilhe

Os recados dos arrastões

Ainda tem gente sem entender o que queriam as manifestações de junho e uma onda de arrastões em shoppings de Belo Horizonte já causa espécie e liga o alarme para os perigos da vida que escolhemos.


Ainda tem gente sem entender o que queriam as manifestações de junho e uma onda de arrastões em shoppings de Belo Horizonte já causa espécie e liga o alarme para os perigos da vida que escolhemos. Do nada, os meninos começaram a combinar, pela internet, ações de delinquência dentro dos centros comerciais. De acordo com informações já coletadas, o planejamento inclui a reunião, a simulação de uma briga generalizada e, na sequência, fuga sem pagar ou mesmo furto em lojas. De qualquer forma, depois que deu certo no feriado de 15 de agosto em Venda Nova, eles se animaram e repetiram o feito dois dias depois, causando pânico em clientes e funcionários e exigindo ação da Polícia Militar, que chegou a pedir a identidade de quem quisesse entrar no estabelecimento.

Por que isso está acontecendo? Ora, Jane Jacobs ficou famosa 50 anos atrás escrevendo que as pessoas são a segurança das ruas e que, se os passeios estão cheios, todos estão bem porque as calçadas são os olhos da rua e esta é o espaço de convivência natural das cidades. Esquecemos seus ensinamentos e de todos os estudiosos da urbanidade, ignoramos o velho hábito de tios e avós de contarem estórias na porta das casas, perseguimos as crianças que queriam jogar boa em qualquer pedaço de poeira ou asfalto, importamos a mania do shopping Center – uma espécie de objeto aéreo não identificado que cai em determinado lugar da cidade e passa a ditar moda, criar hábitos e vira ponto de encontro das pessoas.

Ora, junte-se à geração dos shoppings os que moram nos condomínios horizontais e teremos moças e rapazes que não conhecem a saudável convivência com o diferente – mais pobre, mais rico, mais negro... Nós estamos criando tribos de iguais. E eles, despreparados, animados pela impunidade que marca o país, descobrem que uma boa forma de queimar energia é criar confusão, não na rua, como era comum na minha adolescência, não na porta da escola com o cara que queria namorar nossas amigas, mas, num espaço público, de todos, de estranhos, pois, assim, além de exercitar os hormônios, dão provas de bravura e ficam bem no filme. Afinal, não haverá punição mesmo. A maioria de nossos pais tem coisas mais importantes a fazer que cuidar de sua prole; a polícia não dá conta e não confessa; quem pode mudar as leis não quer. Vamos acordar, estimular a diversidade, saudar a convivência enquanto é tempo?