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Os recados de Amy

Os recados de Amy

Nunca tive vocação para fã ardoroso, desses que sofrem junto com o ídolo. Também não costumo lamentar morte de gente só porque é famosa. Quando, por exemplo, morre um político aos 70, 80 anos, faço a cobertura sem entender direito porque as pessoas choram copiosamente, mesmo porque o cidadão teve a chance de ajudar os mais sofridos e, concomitantemente, uma vida boa que incluiu poder, viagens, conforto, tudo de bom...

Então, por que deveria eu sofrer com a morte de uma moça de quem mal ouvi falar? Pior, por que lamentar se apenas aconteceu o que era previsível, só questão de tempo? Mas, prezados, eu levei um susto quando minha colega Kátia Pereira anunciou, na Itatiaia, que o corpo de Amy Winehouse havia sido encontrado sem vida, dentro de casa.

Não foi um susto de surpresa porque, de certa forma, o mundo todo sabia que ia acontecer. A própria mãe de Amy, Janis, disse que a morte de sua filha era "apenas uma questão de tempo", depois de ter se encontrado com a cantora apenas 24 horas antes de sua morte. "Ela parecia fora de si. Mas sua morte repentina ainda não me bateu", disse Janis Winehouse ao jornal "The Daily Mirror".

Enquanto a polícia investiga a morte de Amy Winehouse, ocorrida no sábado (23) e que ainda é tratada como "inexplicável", a imprensa britânica insiste na hipótese de overdose devido aos problemas da cantora com drogas e bebidas. Um vizinho de Amy Winehouse, que pediu manter o anonimato, declarou à imprensa que, na sexta-feira (22), acordou assustado porque ouvia gritos vindos da casa de Amy.

Se fizermos uma pesquisa ouvindo cidadãos do mundo inteiro teremos seguramente mais de 90% das pessoas afirmando, categoricamente, que ela morreu de tanto usar álcool e drogas. Então, porque ela não conseguiu evitar? Por que as pessoas que a cercavam não deram conta? Por que o mundo não poupou, pelo menos prolongou a vida de uma moça branca, franzina, com um vozeirão de divas negras que arrepiava? Porque, amigos, eu não tenho dúvidas há muito tempo: depois que a pessoa perde o controle no uso das drogas e do álcool não há mais volta, seja ela pobre ou rica, anônima ou famosa. E a gente pode enumerar gênios como Amy que morreram cedo, entrar em detalhes sobre a maravilhosa carreira dessa moça que poucos conhecem entre o grande público ou descer a minúcias sobre os tombos que ela levou nos palcos, os porres que tomou em lugares inadequados, os vexames que deu em público.

Mas, o que importa mesmo, é dizer que ela foi só mais uma vítima de uso abusivo de álcool e drogas. Reparem que coloquei álcool em primeiro lugar porque nós temos a mania de negligenciar os riscos do álcool, ficar comemorando o título de Belo Horizonte “capital nacional dos bares”, estimular as baladas dos filhos nas noites de Porto Seguro e Cabo Frio, enfim, tratar o álcool como substância inocente que só nos dá prazer. Amy nos deixa como legado alguns recados, entre os quais o de que só devemos crescer na medida em que estivermos preparados e o mais importante: as drogas matam quando as pessoas estão na fase mais produtiva. Essa é uma guerra que ainda não compramos com a força, com o vigor, com a raiva que devíamos.