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Os dois quintos dos infernos

Os dois quintos dos infernos

Seguramente, você já ouviu alguém mandar outra pessoa para “os quintos dos infernos”. O que pouca gente sabe é a origem de mais essa expressão bem brasileira, cunhada no meio do povo e incluída em nossos dicionários. Até o século XVII, enquanto a Espanha saqueava todo o ouro dos países que colonizara na América Latina, o Brasil continuava deficitário para Portugal.

De repente, descobriram o ouro e a colônia se tornou a jóia da coroa. Já naquele tempo, o brasileiro era obrigado a pagar muito imposto. Havia a “capitação” – cobrada de todos os senhores que tinham escravo e pelos negros foros ou livres e os brancos pobres que trabalhavam com as próprias mãos; o “quinto”, que era a quinta parte de todo o ouro extraído no Brasil; a “derrama”, que era o recolhimento de todo o ouro ou bens feitos de ouro dos chamados homens bons até que se completassem 100 arroubas e ainda mais 10 por cento de tudo que se produzia a título de “dízimo” para a igreja católica. De todos, o mais odiado era o quinto – daí, nasceu a expressão “os quintos dos infernos”, que passou imediatamente a ser sinônimo de tudo que é ruim.

Quando a Coroa resolver cobrar os atrasados – a derrama – os mineiros perderam a paciência, se revoltaram e nasceu a nossa Inconfidência. Seu principal líder, Joaquim José da Silva Tiradentes, foi preso e decapitado. Agora, tanto tempo depois, o Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, estima que a carga tributária brasileira esteja por volta de 38 por cento, ou, dois quintos de nossa produção. É isso, já estamos pagando “dois quintos dos infernos” de impostos diretos e indiretos, para municípios, estados e a União.

E, concomitantemente, pagamos para ter segurança, escola, médico, tudo o que é básico na vida. Fica a sensação de que apenas trocamos de Coroa e que continuamos sustentando vidas nababescas, com castelos, banquetes, jatinhos, um Carnaval o ano inteiro. Eu tenho certeza absoluta de que não sei mais que 10 por cento das coisas erradas que acontecem nesse país. E tenho também a convicção de que, se a maioria dos brasileiros da época da “derrama” soubessem 10 por cento do que já presenciei, ouvi ou vi eles diriam numa única voz: “Quem participa desse sistema, quem se locupleta direta ou indiretamente do jeito de administrar esse país, vai queimar um dia nos dois quintos dos infernos”.