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O tempo passa

Fui embora me perguntando por que meus amigos, colegas de faculdade, os da redação, ninguém gostava daquele Delfin.

22/01/2016 às 11:20

Perceber a dinâmica da história é um dos exercícios mais fascinantes, sobretudo em dias de incertezas como os que vivemos. Um dia, ainda no começo de carreira, final dos anos 70, estava em solenidade de posse no hoje extinto Banco de Crédito Real e meus colegas repórteres estavam no maior frisson para entrevistar um ministro poderoso que controlava as finanças do país. Como nunca tive dúvidas sobre pedir ou não – sempre considerando que, no máximo, pode vir um não – perguntei ao governador de então se ele não poderia trazer aquele senhor até nós. Com a cordialidade de sempre, Francelino Pereira disse “Delfin Neto, os rapazes querem conversar com você...”. Ele imediatamente se levantou, veio até a área em que estávamos e rolou a entrevista.

Fui embora me perguntando por que meus amigos, colegas de faculdade, os da redação, ninguém gostava daquele Delfin. Também já não estava tão certo se Francelino merecia a saraivada de balas que levava no meu círculo. Mas, como questionar se havia unanimidade de que Delfin era a síntese da ditadura, culpado de todos os nossos males, e Francelino, um piauiense biônico, indigno das promessas dos de boas intenções.

O tempo passou, passou, descobri muitas coisas. Em relação a Francelino, que sempre esteve por perto, aprendi que – embora carregue a pecha de ter servido ao regime autoritário – é um dos políticos mais honestos que conheci em minha vida profissional, foi um dos governadores que mais fizeram por Minas Gerais, indicou para Belo Horizonte um dos melhores prefeitos de sua história – Maurício Campos – e é, enfim, cidadão digno de todo o meu respeito. Sobre Delfin, tenho ouvido muita gente falar dele com o respeito que seus conhecimentos merecem e a maior surpresa é que exatamente os petistas mais convictos, esquerdistas mais ferrenhos, os que vomitavam ao ouvir o nome do poderoso ministro da ditadura, agora o respeitam cada vez mais.

Li essa semana entrevista que Alex Solnik fez com Delfin, hoje com 88 anos, e fiquei impressionado com tudo. Com o encontro de homens que já estiveram em campos tão opostos, com o respeito mútuo, a lucidez de Delfin e a repercussão positiva entre petistas com os quais convivo. De pronto, o ex-ministro assinalou que “direita e esquerda, hoje, no Brasil, é sinal de trânsito” e que não haverá afastamento de Dilma porque, para ele, ela não cometeu desvio de conduta e o Brasil não é mais uma pastelaria. Para Delfin, tudo degringolou a partir de 2014, ano eleitoral, quando Dilma seguiu a filosofia de Maquiavel, segundo a qual “o maior dever do poder é continuar no poder”. Deu o devido recado ao PT, “que não sabe a regra de três”, assegura que Lula – que considera grande inteligência – iria piorar muito se tivesse feito faculdade e afirmou algo surpreendente para quem tem a sua biografia: “No fundo, essa inclusão social, que foi um acidente construído pelo vento externo, fabuloso, foi absolutamente fundamental. Mudou a concepção da sociedade brasileira. Eu acho que é preciso reconhecer essas coisas”. Elogiou também o diário de Fernando Henrique Cardoso – “melhor que o governo dele” – salientou a inteligência dos generais e tranquilizou os que temem as vozes pedindo a volta dos militares. Não há essa possibilidade, pois, “o regime autoritário matou o regime autoritário”.

Resumo da ópera: quanto mais conheço Delfin, mais me pergunto como estaria o Brasil se esse senhor não tivesse ficado quase 50 anos no governo federal.

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