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O primeiro vôo

O primeiro vôo

É da natureza humana: os acontecimentos inevitáveis são exatamente os que nos fazem sofrer mais. O melhor exemplo é a morte, mas, por que falar dela se encontramos exemplos no que há de melhor da vida? Falemos de nossos filhos, bem maior que Deus pode nos dar para que possamos experimentar os extremos de prazer e responsabilidades.

A graça de ser pai (e, sobretudo, mãe), vem acompanhada de carga pesadíssima de obrigações e preocupações que, acreditem, crescem junto com o rebento. Achei o máximo quando alguém explicou o sentido da palavra sacrifício (sacro-ofício) e exemplificou com a mãe que, ao levantar-se durante a madrugada, extenuada, sem sequer abrir os olhos direitos, dá de mamar ou troca a frauda do bebê, não o está fazendo (só) por amor, mas, acima de tudo, por um ofício sagrado.

E quando vêem os primeiros passos junto com o medo dos tombos, as primeiras palavras, a dor de deixar o inocente no primeiro dia de escolinha, os desconfortos que um ou outro coleguinha pode trazer no começo da sociabilidade, as primeiras notas ruins quando a aula é prá valer...

Quem, como eu, tem uma filha beirando 30 anos sabe que as angústias em relação à que tem dez são apenas aquecimento para as festas da adolescência, o atrevimento próprio dessa época, cuidados com as companhias, vestibular, namorado... É tanta coisa para preocupar que uma simples viagem de um dia da mocinha pode significar desarranjo intestinal.

Na verdade, ela já fizera uma excursão com o colégio para Sabará, mas, foi tão rápido, pouco programado e perto que nem doeu. Agora, não! Ela havia falado no passeio a Ouro Preto por pelo menos um mês, combinara mil coisas com as coleguinhas – especialmente a Bela e a Gabi – e, na véspera, preparou-se para “entradas e bandeiras”, não apenas reunindo assuntos que deveria explorar para responder à professora  como também, e principalmente, na infraestrutura do prazer, com máquina fotográfica, refrigerante, chocolate , dinheiro para o lanche (mais?) e um sem número de outras coisas que empanturraram a mochila.

Mas, creia-me, isso tudo seria rotina de criança ativa não fosse o aspecto mais tragicômico da viagem – a apreensão dos pais. Fiquei até constrangido de tantas recomendações da mãe, dois dias antes, um dia antes, na noite anterior da partida e na manhã do embarque: não ponha a cabeça para fora do ônibus, não se afaste dos colegas, não corra, não caia, não faça gracinhas, não fique sem beber água, não... No fundo, no fundo, eu, mesmo achando um exagero, concordava com todas as recomendações e, se pudesse, faria uma mais radical: “Não vá!”.

Mas, quem disse que é possível proibir algo tão simples, tão importante e capaz de provocar tanta excitação? Ainda mais no caso do Colégio Santo Antônio onde todo e qualquer evento, ainda que de recreação, é recheado de tarefas que, se não cumpridas, podem resultar em perda de pontos. Para diminuir o stress de véspera, fomos os três comprar uma blusa nova. Lá estava o Alécio, pai da Bella, mais jovem e igualmente em apuros, brincando que havia ameaçado seguir o ônibus com o próprio carro, só recuando diante da advertência da filha: “Cê num vai me obrigar a esse mico, vai?” Ele, eu, você, somos todos iguais: a gente quer que o filho aproveite todas as oportunidades, mas, de preferência, que fique debaixo de nossas asas para sempre.

Talvez porque os pais de hoje (mais eu que o Alécio) sejamos de uma geração que foi muito oprimida... Então, a gente quer proteger, ser amigo, parceiro, às vezes se torna chato e cria marmanjos que não querem sair de casa antes dos 40. A gente sofre a toa. A excursão foi maravilhosa. Sarinha voltou em estado de graça, trazendo presentes para todos, sem um centavo no bolso e cheia de planos para o futuro, um deles o de ir “com a turma”, mais adiante, para a Disney.

O pai, ora o pai, vai apenas pagar e rezar... Com o cérebro feliz por ter uma filha dentro dos padrões para a idade e o coração sofrendo por antecipação pelo que vem por aí... A passagem da infância para a adolescência anuncia o início de um processo que vai cortar outro cordão umbilical. Que papai do céu nos dê sabedoria para usar bem a tesoura, transformando a proteção necessária dos primeiros anos em confiança e amizade para sempre. Afinal, a canção de Joel Marques que é tema do filme sobre a vida de Zezé de Camargo e Luciano ensina: “Eu sei que ela nunca compreendeu/ Os meus motivos de sair de lá/ Mas ela sabe que depois que cresce/ o filho vira passarinho e quer voar...