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O menino e o deputado

Divido com vocês esse fato na esperança de que outros pais descubram a tempo a importância de pequenos gestos na criação dos filhos.

Um deputado mineiro me contou que sua rotina sofreu alteração neste ano. Pelo menos uma vez por semana acompanha o filho, de 10 anos, à escola. Não, ele não o fez por livre e espontânea vontade ou por perceber que isso é fundamental na formação do filho. Ele tenta evitar a repetição do que aconteceu em setembro do ano passado quando, na reta final da disputa eleitoral, o filho perguntou à mãe se o deputado tinha chances de reeleição. A mãe, surpresa, disse que sim, quer dizer, que o pai tinha alguns mandatos e estava trabalhando em várias regiões, portanto, havia sim chances reais de mais um mandato. O menino não ficou feliz e explicou à mãe: “Não quero que ele ganhe. Eu queria que o meu pai fosse um advogado porque tenho um amigo cujo pai é advogado e todo dia ele leva o filho ao colégio; o meu pai nunca me levou”.

O deputado sentiu o golpe e jura que agora, “pelo menos uma vez por semana”, vai acompanhar o pimpolho ao colégio. Divido com vocês esse fato na esperança de que outros pais descubram a tempo a importância de pequenos gestos na criação dos filhos. E dou um depoimento pessoal. Há uma diferença de idade considerável entre minhas duas filhas. Quando a Fernanda era criança, sempre que possível ia com ela e a mãe para colônias de férias do Sesc, hotéis fazenda, esses lugares nos quais os pais descansam e as criança se divertem. Ela cresceu; muitos anos depois repeti os mesmos programas com Sara. Fiquei espantado com a diferença de comportamento dos pais de agora. Eles trabalham a semana inteira e, quando há espaço para um programa de família, vão para esses hotéis. Só que o pai fica no churrasco, no futebol ou na sinuca e a mãe na espreguiçadeira, com o bumbum ao sol, óculos escuros e lendo revista de fofocas. De vez em quando a babá traz a criança, a mãe dá um oi muito rápido e diz: “Leva”. Há também os casos em que as crianças ficam o fim de semana inteiro com a equipe de recreação do hotel.

Por isso é que temos jovens tão desajustados, em todas as classes sociais e econômicas. E os pais não percebem que perdem a melhor fase de contato intenso porque, depois, como diz a canção, os filhos são como passarinhos – criam asas e querem voar. A filha de 13 anos do deputado já não quer que ele a acompanhe à escola. “Que mico, pai”, disse ela quando ele tentou recuperar o tempo perdido. É a vida!