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O macaco, a pedrada e nossas mazelas!

Ou seja, ele é pago com nosso salário, o zoo é mantido com nosso imposto, ele cobra ingresso (de carro e de gente) e, se alguém entre os milhares que frequentam o lugar ficar ferido, o problema não é dele

Aonde quer que eu vá, em qualquer circunstância e diante de pessoas das mais diversas origens, sempre tenho de escutar algum caso de violência ou indignação com a roubalheira do dinheiro público. Impressionante. Nos últimos dois dias encarregaram-me de propagar ao mundo “tentativas de desmoralizar a figura de Tiradentes” e não deixar os brasileiros esquecerem que 514 anos atrás, quando a turma do Cabral descobriu terras brasileiras, o autor da primeira carta foi logo pedindo um emprego para o cunhado. Deve ser nosso carma, o preço que pagamos por pátria tão bela, repleta de riquezas naturais e tantas possibilidades, sem desastres naturais.  É aquela antiga brincadeira, segundo a qual Deus teria dito “vou dar-lhes uma nação linda, com natureza esplêndida e sem tufões, terremotos, mas vão ter que penar com uma entidade chamada governo”.

 A última do feriadão prolongado foi demais. Uma criança, de um ano e nove meses, foi passear com a família no Jardim Zoológico da capital e o inusitado aconteceu. Um chimpanzé jogou uma pedra que foi acertar o rosto do engenheiro Luís Carlos Torres Ferreira e a testa da filha. Como há sempre um anjo da guarda por perto, ela sofreu “apenas” com um osso da testa trincado e um corte que exigiu quatro pontos. O fato em si já é o bastante para refletirmos até a próxima semana santa. Afinal, por que o macaco jogou a pedra? É claro que ele apenas retribuiu nossos gestos; ou seja, como ele não tem a obrigação de ser racional e a gente joga tudo no recinto dele – desde pedaços de pau, frutas, batata fita, pedra, etc. – ele, até no intuito de brincar (ou quem sabe de indignar-se com tanta falta de educação) jogou a pedra. E acertou bem em cheio a testa da menina. Claro que a culpa não é do chimpanzé. Nós é que não temos educação para visitar um zoo, assistir a um filme, passear num shopping, viajar de avião, parece uma necessidade de chamar a atenção, falar alto, ser indelicado.

Mas, acredite, o pior nesta história ainda estava por vir. Até que a nota ontem emitida pela Prefeitura é respeitosa, promete apurar, rever procedimentos, se for o caso. A primeira entrevista de um funcionário do zoo, no entanto, foi uma tragédia. Disse ele: “Não temos médico aqui porque é raro acidente assim; quando acontece, mandamos para a UPA do Santa Terezinha e, se for grave, orientamos a pessoa a chamar o SAMU”. Ou seja, ele é pago com nosso salário, o zoo é mantido com nosso imposto, ele cobra ingresso (de carro e de gente) e, se alguém entre os milhares que frequentam o lugar ficar ferido, o problema não é dele. É ou não é um castigo a gente ter de ouvir isto? Pensei: são nossas mazelas. Ah, fui buscar sinônimos: indisposição, mancha, dificuldades, problemas sociais, achaque, caruara, doença, enfermidade, incômodo, defeito, macacoa, moléstia, padecimento, afecção, andaço, carregação, defeito, mania, ferida, agravo, ferimento, golpe.