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O cordão e a multidão

A cena ocorreu no cruzamento de avenidas Afonso Pena e Álvares Cabral na tarde de quinta-feira.

 A cena ocorreu no cruzamento de avenidas Afonso Pena e Álvares Cabral na tarde de quinta-feira. O caminhão dos bombeiros seguia devagar e o zagueiro Dedé, um dos grandes ídolos do Cruzeiro, chamava torcedores para o abraço da vitória. A multidão, ensandecida, gritava elogios para o tricampeão brasileiro. Por instantes, o jogador, tomado pela emoção, baixou um pouco o corpanzil para se deixar tocar pelos mais empolgados. Foi fatal. Levaram o cordão de ouro dele. Algumas dezenas de fãs, que estavam mais próximos e perceberam ainda gritaram “devolve; devolve!”. Mas, era tarde. O jogador olhava perplexo. O caminhão foi em frente. E a multidão foi atrás.

E retomo o assunto mais de uma semana depois ainda impressionado porque o ataque é a síntese de um tempo esquisito em que vivemos. Estamos tão violentos, tão intolerantes, que a multidão mete medo em quem tem juízo. É só refletir. O Atlético ganhou a Libertadores, os torcedores foram para as ruas e, no meio deles, bandidos promoveram quebradeira... Uma banca de revistas da Praça Sete ficou destruída. No dia seguinte, em atitude que considero irresponsável – da diretoria de programar e da Prefeitura de autorizar – os campeões foram para a Praça Sete, às sete da noite, acompanhados de muito chope. A mão de Deus evitou tragédias. Depois, o Cruzeiro venceu na Bahia, lojas amanheceram destruídas e saqueadas, um professor foi morto em Sabará, um jovem caiu de uma caminhonete na Pampulha e, na metade do dia seguinte, lá estavam os campeões, desfilando pela cidade e parando o trânsito por inteiro.

Alguém dirá que sou contra a alegria, pareço um velho rabugento contra tudo e contra todos. Não; eu também gosto de festa, em também adoro futebol e estou muito feliz de nossos times estarem onde estão. O que proponho é uma reflexão sobre nosso jeito de comemorar. A gente não sabe ser feliz sem soltar muitos foguetes, muito mesmo, e, de preferência, rumo à casa dos que têm outra preferência (no caso dos atleticanos, eles soltaram fogos a noite inteira perto do hotel onde estava o Olímpia, para ficar mais fácil a decisão). A gente só se realiza se buzina sem parar, uma hora, uma noite, o dia seguinte, o tempo todo, até a bateria não aguentar mais, ainda que seja diante de hospitais e em outros locais inadequados. Mas, acima de tudo, nós não festejamos sem beber, muito, e, depois passar dos limites.

O futebol, que devia unir, divide cada vez mais. A cada conquista, a cidade se mostra partida, com a metade promovendo o maior barulho possível e a outra metade acuada. Com medo. Posso estar enganado, mas, quando vejo algumas reações, como o dedo indicador erguido e o sujeito gritando “chupa essa” não consigo enxergar comemoração. E tenho medo de que nossa saudável prática de confraternizar desapareça na multidão. Como o cordão do Dedé.