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Tenho um amigo que nasceu pobre. O pai era carroceiro. Ele sempre sonhou voos mais altos e, numa parceria destas de encher os olhos com o irmão, firmou-se na vida.

08/06/2015 às 02:12

Tenho um amigo que nasceu pobre. O pai era carroceiro. Ele sempre sonhou voos mais altos e, numa parceria destas de encher os olhos com o irmão, firmou-se na vida. Criaram empresa, fizeram-se respeitar no meio, capitalizaram, buscaram máquinas no exterior, capricharam no trabalho, ganharam prêmios. Cresceram muito enquanto criavam os filhos. Uma vez, tempos atrás, esse amigo tomou um baque daqueles. Doeu na alma. Ainda dói. Ele superou sem reclamar. Também machucou muito uma desavença familiar que, evidentemente, atrapalhou a sociedade, mas, como a amizade com o irmão era rocha pura, escapou.

Mais recentemente, o mundo caiu na cabeça do meu amigo em poucos meses. Foi o tempo suficiente para o irmão querido descobrir um pequeno caroço na perna e morrer. Respirou fundo e, mais focado no trabalho com os filhos, seguiu adiante. Afinal, ele é brasileiro de verdade, não desiste nunca, apanha, vê roubalheiras à sua volta, mas, pelos princípios, quer fazer a coisa certa. Do jeito que aprendeu com os pais; como sempre ensinou aos filhos.

Muito provavelmente por conta das aflições, das tristezas profundas, das decepções contínuas, meu amigo contraiu uma doença rara. E crônica. Mas, está superando!

No fim de semana, outra pancada daquelas! Os desocupados que infernizam sua vida há muito tempo passaram de todos os limites. Não satisfeitos em incomodar, furtar, ameaçar, agora puseram fogo na empresa do meu companheiro. Queimaram tudo. Um prejuízo que ele ainda não sabe se vai conseguir absorver... Seus ombros estão feridos pela dureza da vida, seu coração está sangrando por conta da falta de perspectivas e suas forças são minadas por saber que, a exemplo da esmagadora maioria dos empresários brasileiros, só tem direito de pagar impostos.

Os vagabundos, travestidos de moradores de rua, viciados em crack e outras drogas, estão sugando as energias de meu amigo. Ele tem medo de denunciar, por causa dos filhos. Sabe que a origem das drogas cosumidas na sua vizinhança e, principalmente, os portadores, são nitroglicerina pura. E, como o Estado já não faz sentido entre nós, vivemos a era do cada um prá si e Deus prá todos, não sabe o que fazer. E eu não sei o que dizer.

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