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Lembranças desagradáveis

Aquela espiral inflacionária dos anos 80 e 90 era algo impensável para pessoas de bom senso e esse repórter precisa contar algumas passagens.

02/07/2014 às 10:57

Peço permissão ao Ricardo Galuppo para reproduzir, hoje, a primeira frase do texto dele publicado ontem no HD: “Os brasileiros com menos de 40 anos talvez não tenham noção do que significava viver em um país em que os preços eram remarcados todos os dias e o dinheiro parecia derreter no bolso”. Não há melhor explicação para contar aos mais moços o que se passou entre nós nas últimas décadas do século passado e era desesperador. É preciso insistir nas lembranças do passado para termos o juízo suficiente no presente e evitar nova catástrofe no futuro. Aquela espiral inflacionária dos anos 80 e 90 era algo impensável para pessoas de bom senso e esse repórter precisa contar algumas passagens.

Em 1986, depois da decretação de mais um plano econômico, percebi que algo mais concreto precisava ser feito para mostrar às pessoas o avanço dos preços. Combinei com meus chefes na Rádio Itatiaia e passei a visitar, todos os meses, três supermercados: um no Bairro Funcionários, outro na Cidade Nova e o último na Pampulha. Listei 20 produtos e demonstrava de 30 em 30 dias os resultados nefastos das maquininhas de remarcação de preços que eram vistas três ou quatro vezes ao dia, entre as gôndolas, por quem procurava desesperadamente alguns produtos. Gente conhecida, como Acyr Antão, comprava 50 latas de óleo de soja como forma de economizar algum dinheiro. Demagogos criavam movimentos de defesa do consumidor e da dona de casa que, na maioria dos casos, funcionaram mesmo foi para eleger seus dirigentes. Alguns arroubos eram praticados naturalmente por autoridades, que chegaram a ameaçar sequestro de bois em pastos para conter a inflação. Criaram uma aplicação chamada “over night” que fazia jus ao nome: quem era dado à especulação depositava de tarde e, na manhã seguinte, procurava o gerente para ver os ganhos. Uma loucura. Inexplicável. Claro que os mais prejudicados eram – como sempre – os mais pobres, pois, quando recebiam o salário, ele representava menos que o efetivo valor de compra... Afinal, chegamos a ter inflação superior a 70 por cento em um mês! Quem suporta?

Quis o destino que, naquele primeiro de julho de 1994, eu fosse o escalado pela rádio para entrevistar, ao vivo e direto de Brasília, o então ministro Fernando Henrique Cardoso. Cheguei ao apartamento funcional no qual ele morava – desde os tempos de senador – antes das seis da manhã. Lá estavam apenas ele e a assessora Ana Tavares. Tranquilo, confiante, explicou que o Plano Real era um esforço de meses, reunindo o que havia de melhor no governo para adotar medidas que conseguiriam finalmente domar a hiperinflação. Garantiu que tinha apoio incondicional do presidente Itamar Franco e que precisava do apoio da população. O que não era fácil, depois do confisco de Collor, da morte de Tancredo e da frustração com Sarney. E fiquei ali pensando como um homem só, naquele solitário apartamento, poderia nos dar a tão sonhada tranquilidade econômica. Ele conseguiu. Virou presidente. Passou a faixa a Lula que, contrariando a própria história e mostrando-se inteligente, não mudou a política econômica e a gente conseguiu respirar. Foi muita luta. Nós não merecemos voltar àqueles tempos. Que cada um faça sua parte!

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