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Herança de pai feio

Herança de pai feio

Diz um dos mais conhecidos provérbios brasileiros que “filho feio não tem pai”. Deve ser assim com herança também. Há um caso concreto, que visita estandes da justiça mineira há quase 70 anos e parece ficção. Falo do sonho de 1.356 famílias que tiveram terrenos nas fazendas Ferrugem e Peroba desapropriados para a criação da Cidade Industrial, no município de Contagem.

Recentemente, depois de uma audiência pública, o deputado Durval Ângelo propôs acordo, mas, a exemplo do que vem fazendo há seis décadas, o governo do Estado se calou. O processo de nº 002485239160-6 é tratado com especial atenção no Tribunal de Justiça, tanto que depois experientes desembargadores que funcionavam como relator e revisor se aposentaram sem resolvê-lo e os novos responsáveis pela análise não foram escolhidos.

Há, naturalmente, controvérsias sobre o valor da dívida, até porque a ação judicial se tornou uma bola de neve. Segundo cálculos da defesa dos herdeiros, as indenizações em valores atualizados já oscilam perto de 3 bilhões de reais. A multa de 2% ao mês somaria valores de R$ 20 milhões a cada 30 dias. Os cálculos são pertinentes se observada a valorização da área onde hoje se localizam indústrias como Mannesmann, Belgo Arcelor, Itaú Power Shopping, Biscoitos Aymoré, Massas Vilma, General Eletric, entre outras.

O certo é que uma das herdeiras me procurou dizendo que passa dificuldades, que há um empresário socorrendo algumas centenas de vítimas sujeitas até à falta de alimentos e ninguém decide. O assunto é tão cansativo que o vice-governador Alberto Pinto Coelho prometeu colocar um interlocutor permanente da Advocacia Geral do Estado para acompanhar a situação das famílias Abreu e Hilário, cujos representantes sentem que o Estado admite dever, mas não planeja pagar.

Faz sentido; afinal, imagina o Estado retirar todo esse dinheiro dos cofres de uma só vez? Por outro lado, não é o mesmo Governo que paga dívidas de bilhões ao governo federal anualmente, só com juros? O que realmente importa perguntar é: por que o governo não constrói uma saída decente para todos? Quem sabe se, no lugar de reais, entrega títulos, autorizações de investimento?

O que mexe comigo – e por isso estou entrando na briga – é porque eu não queria estar no lugar dos que negam a quitação de tal dívida. É preciso lembrar que as fazendas foram o ponto de partida para todas as riquezas de Contagem e de Minas e, se alguns milhares de legítimos proprietários estão sujeitos às carências mais importantes, papai do Céu certamente não está feliz.