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Gente sem rosto

Gente sem rosto

06/05/2013 às 02:13

Da mesma forma que o rádio nos permite entrevistar reis e papas ele nos impõe o castigo. Não há um só dia em que a gente não tenha de ver ou sentir as agruras dos humanos. Na última semana, Laudívio Carvalho e eu vivemos na carne duas experiências inesquecíveis: ele com uma menininha e eu com uma mocinha, ambas portadoras da mesma doença – um câncer raro e cruel que vai comendo (isso mesmo) o corpo da pessoa a partir do que mais revela nossa identidade, o rosto.

O pior é que em ambos os casos as personagens não têm dinheiro sequer para o básico. No meu drama, há cerca de três meses procurei saber o que poderia ser feito e a resposta do Hospital das Clínicas foi convincente: uma equipe multidisciplinar havia prestado toda a assistência, tomado todas as providências e agora só resta esperar o desfecho fatal, para a moça que acaba de completar 16 anos, repetindo-se assim o que aconteceu com um irmão, quando ele tinha 23 anos... A mãe dela, aproveitando-se do fato de estar perto de um repórter, que geralmente conhece as pessoas, revelou o grande sonho da paciente que era o de ter uma festa “com DJ e muita alegria”. Com a ajuda de algumas pessoas, especialmente de um empresário da noite, fizemos a festa no último sábado. Sobrou emoção. E, enquanto sorvia bons copos de chope gelado, apreciava a alegria daquela gente. Impressionante.

E a aniversariante, com a maior parte do rosto coberta, já sem um dos olhos e o nariz, desfilava sempre de braços dados com a mãe (já não enxerga direito) curtindo aquele momento único. E fiquei pensando como somos injustos para com Deus. Aliás, penso nisso sempre e o agradeço todo dia, mas, naquela noite de sábado, ficou mais forte... Como a gente, perfeita, pelo menos do ponto de vista de estética que prevalece na sociedade, reclama de qualquer contratempo enquanto pessoas condenadas á morte pela mais trágica das formas esbanja alegria.

Pensei também em outros “sem rosto”, 16 milhões de brasileiros miseráveis que não ganham sequer 70 reais por mês!  Lembrei-me do porteiro do prédio, o tomador de conta do estacionamento, o guarda no posto de saúde, essas pessoas que a gente vê, mas não enxerga. Nosso contato é tão superficial, tão urgente, almas e corpos tão inexpressivos que não os enxergamos.

Aí, dando uma olhada no retrovisor, lembro do dia 13 de maio quando não podemos deixar de lembrar os escravos, irmãos que só tinham direito de trabalhar e, quando do desejo do patrão europeu, se deitar com ele para atender aos instintos mais bestiais. Os negros são o melhor sinônimo para os “sem-rosto” desse país e esse texto é uma homenagem a eles bem como um pedido aos céus para que não abandonemos os humildes, aqueles cuja dor não sai no rádio ou na internet.

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