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Gandarela

Há uma esperança para a serra que é patrimônio histórico, arqueológico, paisagístico e cultural. Atende pelo nome de Antonio Júnior, que, por amor a seu torrão natal, abriu mão de mais liberdade para ser prefeito de Rio Acima.

Há uma esperança para a serra que é patrimônio histórico, arqueológico, paisagístico e cultural. Atende pelo nome de Antônio Júnior, que, por amor a seu torrão natal, abriu mão de mais liberdade para ser prefeito de Rio Acima. Tomou providências óbvias, como levar água a quem não a tinha, embora a visse (afinal, o município é parte importante do sistema que abastece Belo Horizonte), obrigou médicos contratados a atender conforme o combinado, enfim... Mas, o prefeito faz barulho mesmo é pela coragem de assinar decreto tombando parte da Serra do Gandarela. 

Estive lá, para uma solenidade de comemoração do tombamento. Cerimônia chata, uns 30 discursos, alguns enormes, a maioria dispensável, mas, nem liguei. Aliás, gostei porque, entre uma prosa e outra com gente interessante, fiquei namorando a serra. Que serra! Aquilo sim é montanha! Símbolo de um povo, terra de Minas. Cachoeiras estonteantes, minas d´água que são um convite ao mais profundo encantamento. E, para completar – perdoem-me legislar em causa própria – de lá consegui enxergar minha casa, num ponto alto de Nova Lima. Finalmente entendi que, quando olho do meu quintal e vejo quatro montanhas, três estão neste município (duas já tombadas pelo prefeito Cassinho) e a quarta é a Gandarela. Por estas e outras, não paro de me questionar porque os homens são tão avarentos que não conseguem conciliar faturamento e preservação, economia e ecologia, produção e decência. O minério é um bem, matéria prima em abundância no nosso Estado, gera divisas, emprego, portanto deve ser explorado - de preferência com sua transformação em produtos acabados, para gerar maior valor agregado, mais divisas e empregos entre nós, mas, se não tiver jeito, tudo bem, vamos exportar... 

O que não pode é continuar acontecendo do jeito que só o dinheiro dos poderosos decide. É só dar um pulo a Igarapé ou São Joaquim de Bicas: as cidades estão empoeiradas, mais violentas e com perspectivas horrorosas porque a mineração atrai aventureiros e, no primeiro sinal de crise internacional, frustra expectativas jogando nas ruas todos os tipos de desesperados. O que se pede é uma taxação justa, para evitar que poucos fiquem bilionários e populações inteiras continuem na miséria e o mínimo de sensibilidade, de respeito à vida na delimitação da área a ser explorada. 

O que o prefeito de Rio Acima está fazendo é heroico e servirá de chacota nos bastidores, onde muita gente famosa fica só torcendo para que ele faça como outros – dê seu preço, cuide da própria família e ignore o futuro dos filhos, dos netos. Impressionante porque os prefeitos de Caeté e Raposos ainda não tomaram decisões semelhantes. Impressionante como a gente não consegue se mobilizar, salvar uma Serra que daqui há 20 anos pode impedir de que vivamos o guerra hoje entre Rio de Janeiro e São Paulo, por causa da água. Que outros descubram, como o prefeito Júnior, que caixão não tem gaveta, mas, consciência cada um tem a sua e dorme com ela.