Eduardo Costa

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Finitude

11/01/2021 às 09:38

Na madrugada dessa segunda-feira (11), mudei meu trajeto para passar pela avenida Assis Chateaubriand e fazer uma oração de despedida do companheiro Stanley Gusman. Foi inevitável reduzir e olhar para a portaria do prédio que abrigou o Palácio do Rádio, fez história por décadas e recebeu os maiores artistas do país e do mundo. Pois, pela primeira vez, vi um pedaço de madeira no lugar da outrora vistosa escadaria e uma placa de construtora deixando claro que, brevemente, teremos ali mais espigões.

Foi um turbilhão de memórias. O colega apresentador, recém-falecido, tomara café meses atrás, ali na esquina, na padaria, quando falava de dificuldades e sonhos. Mas, agora, a imagem dele se misturava à de Felipe Drummond, Glória Lopes, Victor Couri, Vicente Gomes, Fábio Vieira e outros, tantos outros, que foram vitais na minha formação profissional e também estão no andar de cima. Que saudade!

Vida que segue. Bora trabalhar. Sem, contudo, deixar de pensar no vírus e na finitude. 

A propósito, uma das lições que a covid nos traz é exatamente a de que somos mortais, frágeis, a de que a vida é um sopro e só uma força maior é capaz de definir até quando vamos respirar. A escritora Lya Luft lembrou que estamos numa fila, sem ver o que há no final ou voltar atrás. Agora vem a pandemia e fura a fila para muitos de nós. Pior: sabendo que a nossa consciência humana de finitude exige o ritual da despedida, do enterro, de um último evento público, o corona faz questão de impedir, exige que um saco plástico preto seja o fim de tudo. O mais depressa possível.

E é uma roleta russa. Gente com 80 anos escapa, gente de 49, como Stanley, não suporta; mesmo quem se safa também sabe que é montanha-russa, com sintomas os mais variados e um corpo repentinamente mutilado. Agora, sabe-se que sintomas, como a dificuldade de respirar – como no meu caso –, podem ficar por seis meses. 

Deus do céu.

Então, quando me lembro que a Panair, a construtora Mendes Júnior, a Kodak, a Xerox, a Blockbuster acabaram e o Palácio do Rádio está sendo demolido, penso no quanto devemos baixar a bola e preparar a despedida, quando não poderemos levar gavetas ou carteiras cheias.

E concluo que a frase mais lapidar que já li é a escrita, em inglês, no túmulo de José de Arimatéia para Jesus em Jerusalém, e em português na salinha que Chico Xavier atendida com bondade: “Tudo passa”.

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