Eduardo Costa

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O medo sobe nas árvores

Eu podia jogar pedras nas mangas que queria sem ser acusado de antiecológico...

07/12/2018 às 11:34

Os ouvintes assíduos da Itatiaia já sabem que uma das minhas memórias mais valiosas vem do tempo em que chupava manga, debaixo do pé, ainda menino, em Inácia de Carvalho. Há uma coincidência entre as chuvas e a época desta fruta, o que aumentava o sabor e permitia um momento único e lúdico: pegava os carrinhos de madeira (únicos que papai podia comprar, e só na época do Natal), colocava algumas mangas dentro e saía puxando... Se tivesse com tempo, ainda colocava “correntes” – uma linha ou qualquer coisa que imitasse as verdadeiras correntes que ajudavam os caminhões nas estradas de barro – e era só alegria.

Naqueles tempos, sem TV, tablets ou celulares, percorrer o pomar era passear no paraíso, desde que estivesse de férias ou já feito o dever de casa, além de cumprir deveres domésticos, como alimentar os porcos, as galinhas, etc. As rédeas eram curtas e, mesmo nos momentos de lazer, não dava para descuidar das recomendações. Uma frequente, para dezembro, era: “Menino, não suba nas árvores; estão molhadas, escorregam e, além disso, pode ter marimbondo”. Era bom escutar. Ou apanhar.  

Então, a minha relação com centenários pés era de respeito mútuo: eu podia jogar pedras nas mangas que queria sem ser acusado de antiecológico, mas, em compensação não devia subir, bancar o desaforado com aquele vegetal esplendoroso. Um irmão desobedeceu duas vezes em uma só tarde: invadiu o pasto do vizinho e subiu para pegar a mais linda das “espadas”.

Surpreendido por centenas de marimbondos despencou árvore abaixo, batendo em todos os galhos que estavam pela frente, estatelou no chão e saiu feito louco rumo ao córrego, para se livrar dos ferrões. Ficou dias e dias com o corpo todo ralado e inchado nos pedindo pelo amor de Deus para não contar a verdade. Seria surra na certa.

Por que estou me lembrando de tudo isso? Por que havia respeito mútuo entre a criança e a árvore. Agora que o medo é sinônimo de cidade grande, estou correndo das árvores. Quando chove ou venta, aí que não fico debaixo de uma de jeito nenhum. Ainda que tenha de avançar um sinal de trânsito, dependendo da situação.

Nunca pensei que isso iria acontecer. Mas o medo subiu nas árvores e está apagando a mais doce das minhas lembranças. 

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