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Eu não queria ser juiz

Um juiz de Direito é uma autoridade muito importante. E tem estabilidade no emprego. Também não pode ser transferido ou punido e, se faz algo muito grave, ainda corre o sério risco de ser aposentado mais cedo, com ótimo salário.

Um juiz de Direito é uma autoridade muito importante. E tem estabilidade no emprego. Também não pode ser transferido ou punido e, se faz algo muito grave, ainda corre o sério risco de ser aposentado mais cedo, com ótimo salário. Então, é o melhor dos empregos, certo? Eu não queria. Para começar, o magistrado tem de estudar muito para ser advogado e, depois, estudar muito mais para passar no concurso. Empossado, vai para os lugares mais remotos, corre riscos – inclusive de morte – e, até chegar à capital, passa por muitos perrengues. Enquanto estiver na ativa, haverá sempre uma pilha de processos para decidir e, quando o Conselho Nacional de Justiça fizer um ranking, ainda vai apontar o tribunal dele (o de Minas) como o mais incompetente entre os grandes.

Mas, o que quero falar mesmo é sobre a responsabilidade de um juiz. Eu não queria estar na pele dele, nem pelo melhor salário do mundo e todas as regalias, incluindo férias duas vezes ao ano. Dois casos dessa semana me fizeram pensar nisso. Primeiro é o crime de Contagem, onde um assaltante matou friamente um menino de dois anos, nos braços do pai e agora diz que não foi ele. As câmeras o apontam, as testemunhas também, a polícia não tem dúvidas, mas, ele – e seu advogado de defesa – dizem que há um grande equívoco. Imagino a responsabilidade do juiz que terá de decidir o futuro desse infeliz. Ele merece 30 anos de cadeia, mas, e, se por acaso, existir de fato uma enorme confusão? Quem garante que o que todos nós achamos é a verdade?

O outro assunto é ainda mais complicado. Seis crianças foram retiradas de um casal em frangalhos – ela com depressão e ele tomado pelo álcool. Cada filho foi para um lado. A caçula, de 10 meses, foi para um abrigo e, posteriormente, entregue para guarda provisória a um casal que já tinha uma menina. Agora, dois anos depois, os pais biológicos dizem que estão bem e a Justiça – no cumprimento da lei – está prestes a devolver a menina. Diz o caro desembargador Hebert Carneiro sem entrar em detalhes porque o processo não está com ele: “Eduardo, quando um casal ganha a guarda provisória tem de estar preparado para, depois, devolver a criança”. Claro que respeito o magistrado, mas, estivesse eu na posição de julgar, esqueceria os pais biológicos, os adotivos e, na intenção de dar o melhor para a criança, jamais a tiraria do ambiente em que vive hoje. Ainda bem que não tenho a responsabilidade de decidir.