Ouça a rádio

Compartilhe

Eu já sabia

Eu já sabia

Pesquisa da Fundação Getúlio Vargas resultou em algo que todos os criados na roça, nascidos em meados do século passado e filhos de pais trabalhadores já sabiam: quanto mais pobre é o cidadão mais ele obedece as leis. E é simples a justificativa que o meu, o seu pai sempre dizia, em tom ameaçador e sem chance de discussão: “A única coisa que pobre tem é o nome; então, não o perca meu filho”. É claro que existem os malcriados, em todas as classes sociais, mas, em geral, os pais afastavam qualquer chance de a gente pegar o que não nos pertencia ou deixar de cumprir um dever, pagar um imposto, ainda que se sentindo injustiçado. Lembro-me perfeitamente de quando minha mãe descobria um lápis diferente no estojo e perguntava onde havia conseguido. Achei mãe, dizia, já preparado para a bronca que vinha em seguida: “Engraçado; não acho nada, portanto, vá lá, deixe onde estava, e rápido, antes de seu pai chegar”. Inédito, o estudo foi elaborado pelo Centro de Pesquisa Jurídica Aplicada da Faculdade de Direito da FGV entre o último trimestre de 2012 e o primeiro de 2013. Foram entrevistadas, por telefone, 3.300 pessoas maiores de idade nos Estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Bahia, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Amazonas e do Distrito Federal. Com as respostas, os pesquisadores elaboraram dois índices para avaliar a relação dos entrevistados com a Justiça: o subíndice de comportamento, que mede o nível de cumprimento da lei numa perspectiva individual; e o subíndice de percepção, que avalia como o entrevistado enxerga a eficiência da Justiça a partir de quatro indicadores (instrumentalidade, moralidade, controle social e legitimidade). Com as respostas, os pesquisadores montaram índices e gráficos confirmando que a percepção do cumprimento da lei é maior entre os que ganham menos.  Ficou claro que a maioria esmagadora dos brasileiros condena atos irregulares, como jogar lixo na rua, dirigir embriagado e estacionar em local proibido, mas, poucos de fato repudiam a compra de um CD pirata. No fundo, no fundo,  é simples: os ricos não ligam para pequenos delitos porque se sentem acima da lei; os muito pobres já se sentem à margem da lei; então, sobra para os que estão sonhando com dias melhores a preocupação permanente em fazer a coisa certa.