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Entropia e anomia

Por meu pai, minha mãe, minha mulher, as duas filhas e pelos (poucos) amigos que me desanimaram de entrar para a política – nas raras vezes que...

18/04/2016 às 09:46
Foto: Antonio Augusto/Câmara dos Deputados
Entropia e anomia


Por meu pai, minha mãe, minha mulher, as duas filhas e pelos (poucos) amigos que me desanimaram de entrar para a política – nas raras vezes que seriamente cogitei –, eu digo obrigado! E aproveito para agradecer a Deus os talentos que me deu e que procuro multiplicar, estudando, refletindo, me redimindo de forma a não precisar sair dos trilhos para sobreviver com conforto. O que todos nós vimos nesse domingo (17), ao vivo e direto do Congresso Nacional, é espetáculo que dispensa quaisquer adjetivos ou discursos acerca da tragédia que é a nossa democracia representativa. E estar dentro dela só é possível para três tipos de pessoa: os jovens sonhadores (sonhar é bom, mas tem de ter prazo de validade), os espertalhões sem limites que procuram o guarda-chuva da imunidade e os meninos bobos cujos papais e vovôs fazem da política a profissão deles, até por que, na maioria esmagadora dos casos, falta-lhes quociente de inteligência para outra profissão de destaque, como fazem questão os amantes do faz de conta. A política de pai para filho no nosso país é asquerosa porque não exige do herdeiro qualquer aptidão, respeito ou gosto pela coisa pública.

Quando vejo aquelas figuras caricatas no papel de crianças carentes, que vão ao parque pela primeira vez, me pergunto se não deveria ouvir Martin Luther King e sua frase de valor inquestionável: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”. Como posso ficar aqui, falando mal, ao invés de disputar eleição, buscar um mandato e contribuir, tratar o mandato com o mínimo de seriedade? Por que não aproveitar a exposição que o jornalismo me dá, me deixar seduzir pelas sugestões de candidatura de todo dia e dos convites para filiação que sempre aparecem? Quando me vejo no auge da dúvida, levo um beliscão da consciência advertindo que no rádio, na TV, no jornal ou em outro meio, sem cor partidária, posso ser mais útil. E logo retomo a convicção de que o meu caminho é outro. Até por que já não sou mais menino e fatalmente teria a saúde afetada pelo convívio diário com algumas figuras que frequentam o Congresso Nacional. Não gostaria de tomar café toda tarde com Eduardo Cunha, Paulo Maluf, Paulinho da Força e adjacências.

Sempre é bom lembrar que os deputados não caíram do céu; nós os colocamos lá, com nosso voto. E, para o bem da democracia representativa que temos, é bom respeitá-los (quem acha que a outra forma, direta, pode ser melhor, deve ver imediatamente uma assembleia de condomínio). Os senhores deputados e as senhoras deputadas são o retrato do nosso país, da nossa sociedade. Temos de aguentar a frieza do Cunha, que não reage ao ser chamado de gangster; tolerar idiotice, hipocrisia e má fé de tantos porque assim é a vida... Como ela é!

Pense comigo o que é pior: gente como o Jair Bolsonaro que defende torturadores, odeia gays e outras minorias ou o Jean Wyllys, que defende as liberdades e cospe em Bolsonaro? Pior é a turma da direita, o reacionário que agora vai lutar por mais 100 anos sem qualquer chance de ascensão para os pobres, ou o militante de esquerda, petista aborrecido que encheu nossa paciência durante décadas, patrulhou todo mundo 30 anos e, tendo chance de poder, meteu a mão com força, com sede de roubar e errar, a ponto de se misturar com Renan, Sarney, Collor e todos os outros coronéis? Quem deixa mais intrigada a nossa cabeça: o Newton Cardoso Júnior votando contra a corrupção ou a Jô Morais pedindo respeito depois de 13 anos de indecência na cozinha de seus companheiros? E os religiosos, hein? Falando de Deus... Sei que vou passar pelo umbral e estou me preparando; caso contrário, não desejaria vê-los lá. Não consigo ser bom o bastante para chamar essa elite política de irmã.

Nietzsche falou que, quando a gente acorda, de noite, sobressaltado, os fantasmas que já vencemos voltam para nos assombrar. Como não conseguia pegar no sono de domingo para segunda, lembrei-me do amigo e conselheiro Luís Borges, que tem falado muito sobre duas palavras. Diz ele que nos sentimos na “anomia”– estado de falta de objetivos e regras e de perda de identidade, provocado pelas intensas transformações ocorrentes no mundo social moderno, ou, não nos sentimos representados por aqueles senhores; e que, no mundo de nossos governantes o tempo é de “entropia” – em termodinâmica, é a medida de desordem das partículas em um sistema físico. No contexto das partículas, como sabemos, ao sofrerem mudança de temperatura, os corpos alteram o estado de agitação de suas moléculas. Então considerarmos esta agitação a desordem do sistema.

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