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Discutindo a relação

Se existe uma pessoa sem autoridade para anunciar ruptura com os estádios de futebol sou eu. Já o fiz mais de uma vez. Então, agora quero...

Se existe uma pessoa sem autoridade para anunciar ruptura com os estádios de futebol sou eu. Já o fiz mais de uma vez. Então, agora quero dividir contigo é a decisão de dar um tempo – ou, como se diz entre os apaixonados, uma DR, a sigla que significa discussão em torno da relação, quando as partes colocam suas queixas, ouvem argumentos e tentam reconstruir alianças.

Não há a menor chance de torcer para outro time, pois quem é atleticano nasce; não se torna nem desiste. Aliás, minhas tristezas não estão diretamente ligadas ao clube, mas ao esporte, aos que o fazem, ao jeito de se lidar com o dito profissionalismo. Sempre achei que os jogadores ganham demais, os técnicos têm prestígio indevido, os cartolas são tratados como se fossem empresários vitoriosos e o torcedor (eu, também, claro) o bobo da corte. De uns tempos para cá aumentou minha sensação de estupidez por ainda me interessar, às vezes sofrer, sabendo tratar-se de um grande circo. Vivo a incomodar os colegas que trabalham com futebol, “cornetando” no ouvido deles, tocando no assunto no rádio e na TV sem que seja essa a minha área de atuação, enfim, tenho dedicado tempo demais para falar do mesmo – dificuldade de aceitar fatos envolvendo o mundo da bola.

Pior é que, quando converso com gente de minhas relações, pessoas das quais gosto e que considero de bom senso, elas estão do outro lado... Assim, preciso rever conceitos, e, como não tenho disposição para esforços no sentido de reciclar, vou me ater ao jornalismo no qual atuo, já repleto de injustiças e barbaridades, e priorizar os livros nos quais estão viagens mais interessantes. Tenho comigo que os ímpetos da juventude autorizam bravatas, exageros, equívocos e até deslizes... A gente acha que sabe tudo, que tem a menina mais bonita, o partido político mais honesto, o time imbatível... Depois dos 50, quando se descobre a verdade socrática de que nada sabemos é hora de por a bola no chão e priorizar o que de fato importa.

Recentemente, vivi momentos dos mais felizes como atleticano, com a chegada de Marcelo Oliveira. Fui para o estádio, animado, desci do táxi na Silviano Brandão, tomei cerveja no meio do samba, subi como adolescente as ladeiras do Independência e experimentei as delícias da Rua Pitangui. Hora do jogo. E não é que ele, Marcelo, meu Telê Santana moderno, manteve Patric no time, exercendo funções de armador e goleador? O time estava perfilado para o hino nacional e, antes que me recuperasse do susto de saber que Marcelo, assim como Levir e Aguirre, insistiam no que considero ofensa ao futebol-arte, eis que outra tristeza profunda invadiu minha alma: a torcida atleticana, uma das maravilhas brasileiras, cantou o hino do Galo o tempo todo, em cima do hino do Brasil... Mas, como? Me disseram depois que é uma forma de a massa protestar contra aquela frase “... A imagem do Cruzeiro resplandece...” Meu Deus! Quanta bobagem! Como pode se misturar uma coisa com outra? Então, comecei a mobilizar colegas para que iniciassem uma campanha, falassem da importância de gostar do hino, disseminar a ideia de pátria! E não vi qualquer empolgação em meus pares. Alguns disseram que concordam com o protesto, outros não querem o hino nacional no campo de futebol... Que desolação! No auge de minha desilusão assistia pela TV a um clássico e, diante da queda de um jogador do América, o técnico do Cruzeiro mandou o jogo continuar... Como? O tal Paulo Bento vem do outro lado do oceano para dizer que fair play não existe mais em gramados mineiros e não reagimos? Alguns disseram que ele tem razão, que tem muita cera em nome dos “machucados”... Mas, então, lutemos para punir os estelionatários! Mas não, a gente, para evitar que um espertalhão ganhe tempo, decreta que os atletas devem seguir o jogo, ainda que um colega esteja com a perna quebrada...

Definitivamente, eu preciso ouvir mais música, ler mais, prosear sempre e deixar o futebol para quem entende...