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Depende, uai! (último)

Divertimos-nos nas duas últimas colunas com o velho e bom provérbio mineiro, seguramente uma das marcas de nossa cultura. Hoje, quero falar...

29/01/2016 às 03:14

Divertimos-nos nas duas últimas colunas com o velho e bom provérbio mineiro, seguramente uma das marcas de nossa cultura. Hoje, quero falar sobre o uso dessa expressão por algumas pessoas importantes que passaram por minha vida.

Primeiro, quero falar de um chefe, de décadas, que, com maestria, usa essa expressão seguida de outra, ímpar. Quando procurado por qualquer colaborador da empresa, seja mais ou menos importante, está sempre com a porta aberta e acolhida afetuosa. A pessoa diz então que precisa falar-lhe algo e conta com sua atenção, no que ele consente; que precisa de ajuda, então ele vem com o “depende, uai!” e, na sequência, como quase sempre é pedido de aumento salarial, ele completa o ritual de forma definitiva: “Vou conversar lá no Pessoal, você passa lá, vamos ver o que fazer... Mas, veja bem, não é tudo que você merece, mas, com certeza, é mais que eu posso dar”. A pessoa vai embora feliz e, mesmo não tendo todos os seus sonhos realizados no próximo pagamento, guarda gratidão pela acolhida que é retrato falado de “depende, uai”.

Meu pai era assim, quando diante de uma dificuldade imposta pela pressão familiar. “Pai, posso fazer uma festa aqui para os amigos?” era sempre seguido por um “depende, uai, se tiver horário para começar e acabar, vier só gente que se comporta e você puder fazer coisa direito, para não me dar vergonha, tudo bem”. Minha irmã, já moça feita, na noite de Natal, rua em festa pedia para ir à casa de dona Maria, vizinha, e a resposta vinha na lata: “Depende, uai, se sua mãe ficar lá com você e me garantir que vai se comportar diante dos rapazes que tem lá, tudo bem”.

Saudades também das prosas com meu padrinho Ari, que foi para outro plano depois dos 110 anos. E que arrependimento por não ter gravado nossos últimos encontros! Trago-os na memória, até porque as estórias eram quase todas repetidas (peso dos anos) e, ainda assim, deliciosas. Se indagado sobre a correção na vida, vinha com um discurso que começava com “depende, uai!” seguindo-se a explicação de que, por vontade própria não, mas, sem querer, às vezes dera prejuízo aos outros, como quando vendeu uns palmitos no mercado, deu o troco errado e nunca mais encontrou o comprador para se redimir. Se a gente queria saber sobre mudanças no comportamento da juventude, depois do “depende, uai!” vinha a citação de que famílias mais estruturadas continuavam seguindo o caminho considerado correto por ele, mas, “meu filho, tem umas moças aí que são da pá virada... A propósito, sabia que fulana, filha de beltrano, tá grávida?” Interessante é que passou as últimas décadas de sua vida com a audição muito prejudicada, mas, sabia em detalhes de como conterrâneos se comportavam na alcova. Afinal, estar bem ou mal informado, “depende, uai!”.

Quer uma versão universal de nosso provérbio? É só lembrar as cinco frases mais importantes dos cinco judeus mais importantes: Moisés, “a lei é tudo”; Jesus Cristo, “o amor é tudo”; Freud, “sexo é tudo”, Marx, “o capital é tudo” e Einstein, “tudo é relativo”. 

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