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Conversando, a gente se entende!

Conversando, a gente se entende!

Feche os olhos, lembre-se da nossa tradição de tratamento diferenciado às elites, do quanto os poderosos mandam na cidade, e diga-me: entre duas obras, realizadas concomitantemente, no Morro das Pedras e na Savassi, em qual delas há queixa de falta de diálogo? Pois, acredite, é na Savassi que as pessoas estão reclamando da prefeitura por falta de acertos em relação à ação das máquinas e suas consequências.

Vamos contextualizar: a prefeitura só conseguiu viabilizar o “Vila Viva” – que considero a mais importante política pública de tudo que vi, ouvi e reportei em 34 anos na profissão de jornalista – porque, antes, via orçamento participativo e outras iniciativas de consulta popular, seus representantes aproximaram-se das verdadeiras lideranças de vilas e favelas. Conversando francamente, através de agentes sociais qualificados, a administração levou sua mensagem, ouviu as apreensões dos envolvidos, apagou incêndios nas almas dos pobres, sempre desconfiados (e com razão) e construiu, assim, uma relação de confiança e parceria.

O “Vila Viva” já passou pela Vila Senhor Bom Jesus, mudou a história do aglomerado da Serra – com suas cinco vilas e perto de 60 mil moradores – já chegou ao Taquaril, à Pedreira Prado Lopes e a outras regiões pobres, incluindo o Morro das Pedras. E, embora haja ressalvas, o “Vila Viva” é um achado.

Por outro lado, a PBH descolou alguns milhões de reais, em “operação urbana” que combaterei com todas as forças até a morte (porque oficializa a possibilidade de quem tem dinheiro fazer o que a lei não permite aos outros), e decidiu dar um “presente à Savassi” – exatamente a região mais prejudicada com a expansão de um shopping Center. Retirou da gaveta antigo projeto e colocou as máquinas na Praça Diogo de Vasconcelos. Quanta confusão! Até quem torcia pela novidade já duvida do sucesso, como um lojista, autor da seguinte frase: “Daqui ha muitos meses, a Savassi vai ficar linda e eu falido”.Os clientes sumiram, afugentados por poeira, barulho, desvios de tráfego e aumento da violência.

A Prefeitura descobre, com o desgaste, que, na favela ou com os bacanas, se não conversar direito, tocar as obras junto com as pessoas, a intenção pode até ser boa, mas o resultado será trágico. Afinal, por imposição e com truculência, nem de graça a gente quer.